Quando o trauma uretral acontece, nem sempre precisa parar de realizar o cateterismo urinário intermitente limpo

O cateterismo intermitente limpo (CIL) é a técnica de esvaziamento periódico da bexiga através da inserção de um cateter e é a prática que mais se assemelha ao processo fisiológico de eliminação urinária. Por isso, na maioria das vezes, é o tratamento de primeira escolha na reabilitação vesical, indicado para o tratamento das disfunções urinárias associadas à lesão medular e a mielomeningocele.  

 Tem como objetivos promover a reabilitação vesical através de estímulos para a micção espontânea e realizar a retirada de urina residual para prevenir futuras complicações, como a estase urinária, que é quando a urina residual fica retida na bexiga, oferecendo um ambiente propício para o desenvolvimento de microorganismos, o que, consequentemente, promove infecção do trato urinário e deterioração da função renal. 

A realização do cateterismo intermitente limpo (CIL) está relacionada a melhores níveis de autoestima, autoeficácia, autocuidado, independência, qualidade de vida e melhor convivência social. 

Apesar de ser um procedimento simples, seguro e de baixo custo, trata-se de uma técnica invasiva e algumas dificuldades e complicações podem ser observadas em sua realização e podem estar relacionadas aos materiais utilizados, à técnica empregada e aos recursos materiais, físicos de acessibilidade encontrados por seus usuários.  

As dificuldades vivenciadas por usuários do cateterismo intermitente limpo são citadas na literatura e estão relacionadas à doença da pessoa, comorbidades, às habilidades física, motora e visual, dor, desconforto, questões psicológicas, como medo e insegurança, instalações inadequadas, falta de acesso aos materiais necessários, dificuldades financeiras e dificuldade de organizar a rotina. Estes são fatores que vão implicar na indicação do uso do cateterismo intermitente limpo ou não, da necessidade do cuidador para realização da técnica ou da possibilidade do autocateterismo e, também, podem contribuir ou não para o sucesso do procedimento e para sua continuidade.  

Quanto ao acesso aos materiais, é um direito de que sejam de aquisição gratuita para manutenção das necessidades, conforme avaliado e prescrito pela equipe de saúde. Para isso, indicamos a leitura de uma postagem prévia no Portal D+Informação que trata sobre os direitos e acesso aos materiais para o cateterismo intermitente limpo. Clique aqui  para acessar a postagem.

Como complicação, o trauma uretral é o um dos maiores riscos ao qual os usuários do CIL estão expostos. É caracterizado pelo atrito entre o cateter mal lubrificado e a mucosa uretral, que é um tecido sensível e bastante vascularizado. Assim, o trauma uretral é sucedido por dor e sangramento, que pode ser desde pequenas estrias de sangue na extensão do cateter urinário até hemorragia uretral. O trauma uretral oferece uma porta de entrada para microorganismos, aumentando o risco de desenvolvimento de infecções do trato urinário. Os usuários do sexo masculino são mais afetados pelo trauma uretral devido à anatomia de sua uretra, que é maior e mais sinuosa em relação à uretra feminina. 

 Para prevenir a ocorrência do trauma uretral, é indicado o uso de lubrificante em gel diretamente na uretra: 10ml na uretra masculina, 06ml na uretra feminina e de 0,5 a 2ml na uretra infantil. Amplamente utilizada, a lidocaína 2% em gel promove a lubrificação da uretra e, assim, diminui o atrito do cateter contra a mucosa uretral, reduzindo a ocorrência de trauma e, consequentemente, infecção do trato urinário. Neste uso, a lidocaína em gel não tem objetivo de promover anestesia, mas sim lubrificar para facilitar a passagem do cateter. 

Quando o trauma uretral acontece, não precisa parar de realizar o cateterismo.  É importante aumentar a ingesta hídrica, desde que não haja contraindicações e continuar realizando o cateterismo intermitente limpo nos próximos horários previstos com intensificação da lubrificação da uretra para impedir a estenose uretral, que é a cicatrização da uretra que pode levar ao estreitamento e até a sua total oclusão, tornando impossível a inserção do cateter. É necessário procurar um serviço de saúde quando há hemorragia, um sangramento uretral que não cessa. 

Para que haja sucesso na realização da técnica e continuidade no processo de reabilitação vesical, livre de complicações e dificuldades, é necessário treinamento que deve ser oferecido por equipe de saúde multiprofissional qualificada e preparada para responder às dúvidas dos usuários e/ou seus cuidadores e capaz de abordar questões biológicas, psicológicas e sociais. Se estiver com dúvidas ou dificuldade, procure a equipe de saúde que realiza o seu acompanhamento. 

SAIBA MAIS 

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LOPES, M. A. L.; LIMA, E. D. R. P. Continuidade do Cateterismo Vesical Intermitente: pode o suporte social contribuir? Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 22, n. 3, p. 461-466, jun 2014. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/rlae/article/view/86600>.  

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PORTAL D+INFORMAÇÃO. Aquisição gratuita de material para cateterismo vesical é um direito. Acesso em 11 nov. 2019. Disponível em <https://demaisinformacao.com.br/objetivo-e-atrativo-para-populacao/>. 

VAHR, S.; COBUSSEN-BOEKHORST, H.; EIKENBOOM, J.; GENG, V.; HOLROYD, S.; LESTER, M.; PEARCE, I.; VANDEWINKEL, C. Catheterisation urethral intermittent in adults. European Association of Urology Nurses, Evidence-based Guidelines for Best Practice in Urological Health Care [Internet], 2013. Disponível em: <https://nurses.uroweb.org/guideline/catheterisation-urethral-intermittent-in-adults/

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Autores:  

Leonardo Orlandin. Enfermeiro bacharel e licenciado. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. 

Profª Draª Fabiana Faleiros Santana Castro. Enfermeira. Professora Doutora do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. 

Profª Draª Marislei Sanches PanobiancoEnfermeira. Professora Associada do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e de Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. 

Profª Draª Soraia Assad Nasbine RabehEnfermeira. Professora Doutora do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

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