Desenvolvimento neuropsicomotor e deficiência

Quando nem tudo vai bem…

O desenvolvimento neuropsicomotor é um processo longitudinal, contínuo, flexível e cumulativo de aprendizado que envolve maturação neurológica, visão, audição, comportamento, coordenação motora grossa e fina, pensamento, memória, cognição, interação social e afetiva com pessoas e objetos, reconhecimento de sons e vozes, entre outros.

É direito fundamental de qualquer criança, sendo produto da interação dinâmica entre fatores intrínsecos (tais como a genética) e extrínsecos (ambiente) ao sujeito e deve ser continuamente observado pela rede de cuidadores e apoio de uma criança.

A literatura comprova a existência de um amplo conjunto de conhecimentos científicos que constatam que os cuidados que a criança recebe na primeira infância são da maior importância para seu desenvolvimento futuro, pois a primeira infância é a fase onde as respostas são mais rápidas, amplas e intensas.

Dessa forma, diferentes atores participam, influenciam e devem observar ativamente o cotidianamente o desenvolvimento de uma criança. Mãe, pai, irmãos e outros familiares próximos são as primeiras figuras a se pensar nessa emaranhada rede de influências e informações para a criança. Somam-se a eles cuidadores como babás, professores, auxiliares, profissionais de saúde e até mesmo a vizinhança ou quaisquer pessoas que estejam no meio social daquela criança.

Assim, é importante destacar que embora a máxima “toda criança tem seu tempo” seja de fato uma verdade, ela reflete a variação da velocidade com que determinadas habilidades possam ser adquiridas, porém há idades limites que são referências para aquisição de tais habilidades às quais chamamos de marcos do desenvolvimento que refletem as aquisições motoras, linguísticas, adaptativas ou cognitivas alcançadas pela criança. 

Duas questões são essenciais no acompanhamento do desenvolvimento neuropsicomotor de uma criança e cuja ocorrência possa implicar na suspeita de que algo não vai bem. A primeira delas é a dificuldade em realizar uma tarefa ou de desempenhar uma habilidade específica para aquelafaixa etária, por exemplo uma criança de 12 meses que ainda não senta sem apoio, ou que não emite sons silábicos como “dada”, “papa”, ou que não busca seus brinquedos ativamente.

A segunda diz respeito à perda repentina das habilidades já adquiridas pela criança tais como a criança que já anda sem apoio e repentinamente começa a se segurar para andar ou não anda mais. A observação contínua dessas questões por parte da rede de apoio é essencial para a identificação imediata de alterações na saúde da criança o que possibilita a realização de diagnóstico precoce e assertivo. Tão logo a causa tenha sido identificada medidas de reabilitação ou Intervenção Precoce (IP) precisarão ser implementadas.

A IP compreende um processo sistemático de planejamento e fornecimento de serviços terapêuticos e educacionais às famílias que necessitam de auxílio para atender às necessidades de desenvolvimento de crianças pequenas. Trata-se de um conjunto de serviços prestados às crianças entre zero e cinco anos de idade, com o objetivo de promover a saúde e o bem-estar, impulsionar a emergência de competências, minimizar os atrasos no desenvolvimento infantil, remediar as incapacidades existentes ou emergentes, impedir a deterioração funcional além de promover a adaptação parental e o funcionamento integral da família. Oferecer acesso continuo e eficiente à intervenção precoce às famílias de crianças com deficiências é a chave para melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida dessas pessoas.

REFERÊNCIAS
Early Childhood Adversity, Toxic Stress, and the Role of the Pediatrician: Translating Developmental Science Into Lifelong Health. PEDIATRICS Volume 129, Number 1, January 2012.  

Blair M, Hall D. From health surveillance to health promotion: the changing focus in preventive children’s services. Arch Dis Child. [Internet]. 2006Sept [cited May 01, 2017];91(9):730-5.

Última modificação :

Reabilitação nutricional em crianças com paralisia cerebral

Através da reabilitação nutricional a criança com Paralisia Cerebral (PC) pode receber o aporte nutricional necessário, respeitando as suas dificuldades e capacidades individuais.

As crianças com PC têm problemas relacionados ao tônus muscular  e  também às suas habilidades motoras, o que faz com que a aceitação das refeições sejam prejudicadas e desafiadoras por  apresentarem dificuldade na mastigação/deglutição.

A desnutrição e desordens gastrointestinais são muito comuns nesses pacientes, como o refluxo gastro-esofágico e disfagia, uma dificuldade de deglutição, que acarreta na interrupção do prazer de alimentação e das condições nutricionais de um indivíduo. Dependendo do tipo da PC a disfagia pode ser severa, com entrada inadequada de alimentos e/ou líquidos nas vias respiratórias (“aspiração”) .

A disfagia causa  vários desconfortos às crianças, com sintomas desde tosses, secreções e febres, até pneumonia. Por dificultar a alimentação adequada e a quantidade de nutrientes tornar-se insuficiente no organismo, muitas apresentam quadro de desnutrição. 

As razões da desnutrição também podem ser devido a fatores não nutricionais, como os problemas endócrinos, imobilidade e outros.

QUAIS NUTRIENTES O MEU FILHO PRECISA?

Crianças com PC precisam de boa nutrição e alimentos saudáveis iguais a qualquer ser humano nessa faixa etária. Porém, dependendo do nível de sua atividade física e tônus muscular, podem vir a precisar uma ingestão maior ou menor de nutrientes. 

Para manter os ossos fortes, as  crianças com PC também precisam receber três minerais :

Cálcio – mineral que forma os ossos e estrutura dos dentes. As melhores fontes são: leite, iogurte, queijo e folhosos verde escuros.

Vitamina D – ajuda o corpo a absorver o cálcio dos alimentos. É encontrada no atum, óleo de peixe,  leites fortificados  e na exposição da pele ao sol.

Fósforo – mineral que também tem papel na formação dos ossos e dentes. Encontrado nos laticínios, peixes, ovos, aves, castanhas e cereais integrais.

Outros minerais importantes para a saúde óssea incluem: magnésio, cobre, zinco e manganês, disponíveis nas leguminosas (feijões, grão de bico, lentilha).

O MEU FILHO ESTÁ RECEBENDO OS NUTRIENTES SUFICIENTEMENTE?

Os profissionais da saúde  avaliam as necessidades nutricionais da criança, após conversar com os cuidadores  a respeito  e após os assistirem na oferta de alimentos .

É realizado um Recordatório Alimentar  da criança, com os alimentos oferecidos,  consistência das refeições, posicionamento da criança ao comer, utensílios utilizados,  presença de tosse, avaliação da mastigação e disfagia,  tempo gasto na alimentação, entre outras características individuais .

Com  esse documento contendo os dados da criança, acrescenta-se sua  idade, altura e nível da atividade física. O nutricionista, então, fará um Plano Alimentar  Individualizado cujo objetivo será cobrir as prováveis deficiências nutricionais que afetam a qualidade de vida da criança.

Durante os retornos, se não houver aumento de peso,  ou progresso em outras questões avaliadas, o Plano Alimentar  será reavaliado.

SUPLEMENTOS ALIMENTARES

Dependendo do tipo de PC, algumas crianças não conseguem receber todos os nutrientes necessários, pela via oral, causando as deficiências nutricionais.

Assim, um  Suplemento  Nutricional, em pó ou líquido,  poderá ser adicionada à alimentação usual para aumentar o porcentual nutritivo: enérgico, proteico,  de   vitaminas e minerais.

ESPESSANTES

A maioria das pessoas com disfagia,tem mais dificuldade em engolir a água e líquidos ralos. Então, para  se adequar a consistência do alimento para a deglutição segura, são utilizados espessantes industrializados ou mesmo alimentos específicos para se encontrar a consistência adequada das refeições, para que a deglutição ocorra sem intercorrências ou aspirações.

SONDAS

São tubos de silicone colocados no nariz ou estômago, que permitem ao alimento ser ingerido sem precisar mastigar ou deglutir.

Normalmente , a decisão pela utilização da Sonda é difícil para os pais. Eles querem que seus filhos continuem comendo pela boca, iguais a outras crianças. Porém, as crianças com dificuldades de deglutição podem aspirar os alimentos, ( entrar nas vias  aéreas ou pulmões ), podendo causar doenças respiratórias, como a pneumonia.

Nessas situações, a alimentação pela boca deveria ser suspensa, e a Sonda  deveria ser introduzida .Dessa forma, as refeições seriam menos estressantes e mais agradáveis para essas crianças, e os cuidadores teriam a certeza do consumo nutricional necessário.

SUPORTE NUTRICIONAL – SONDA NASO ENTÉRICA E GASTROSTOMIA

Quando se recomenda uma sonda alimentar , muitos outros tratamentos  com fórmulas e dietas,  já foram tentadas sem sucesso.

A *Sonda ( naso entérica) pode ser colocada através do nariz para alcançar o estômago    –quando o período de suporte alimentar for curto . Um tubo também pode ser colocado através de um orifício na barriga ,para dentro do estômago ( gastrostomia) –  usado para  um suporte alimentar de longo termo.*Normalmente o material utilizado nas sondas é o silicone flexível.

O Suporte Nutricional recebido pelas crianças , é individualizado para as suas necessidades nutricionais . Com a melhora do estado nutricional e consequente ganho da massa  magra , a função motora da criança com PC parece melhorar.

A Reabilitação Nutricional possibilita que a alimentação da criança com PC seja  individualizada,com estratégias  adequadas as suas condições intelectuais e motoras, atingindo suas possibilidades  nutricionais e melhores chances de inclusão em seu meio.

Referências:

J Cachexia Sarcopenia Muscle. 2018 Jun;9(3):453-464. 2018 Feb 2.Determinants of muscle preservation in individuals with cerebral palsy across the lifespan: a narrative review of the literature. Verschuren O1, Smorenburg ARP2, Luiking Y2, Bell K3,4,  Barber L5, Peterson MD6.

Indian J Palliat Care. 2017 Oct-Dec;23(4):387-392.Multiple Nutritional Deficiencies in Cerebral Palsy Compounding Physical and Functional Impairments. Hariprasad PG1, Elizabeth KE1, Valamparampil MJ2, Kalpana D3, Anish TS2.

Rev Paul Pediatr .2013 Sep;31(3):334-349.Food pattern and nutritional status of children with cerebral palsy.Patricia Ayrosa C Lopes, Olga Maria S. Amâncio, Roberta Faria C. Araujo, Maria Sylvia de S.Vitalle and Josefina Aparecida P. Braga.

Rehabilitation: medical aspects with special reference to rehabilitation by feeding. Neuro Endocrinol Lett. 2006 Aug;27(4):507-12.

Journal of the American Dietetic Association.Volume 102,Issue 3.March 2002,Pages 361-373.Feeding Dysfunction is Associated with poor Growth and health Status in Children with Cerebral Palsy. Ellen B. Fung Phd,RD,Lisa Samson-Fang MD, Virginia A Stalling MD, Mark Conaway Phd.

Indian Pediatr. 2001 Aug;38(8):839-46.Feeding problems in children with cerebral palsy.Gangil A1, Patwari AK, Aneja S, Ahuja B, Anand VK.

Journal of the American Dietetic Association.Volume 96, Issue9, September 1996, Pages 874-879.Wheight and Length Increases in Children after Gastrostomy Placement.Daris .Corwin MS, RD, Janets.Issacs Phd, RD.

Sou Lucimara Lima, nutricionista com formação pela UFRJ e  USP-Ribeirão Preto, com experiência em Reabilitação Nutricional para crianças e adultos; Educação Nutricional Infantil (Oficina Culinária ); Fertilidade Feminina e Masculina; Obesidade e patologias em geral.

Última modificação :

Skip to content