É hora de escolher qual vacina contra a covid-19 devemos tomar?

À espera de uma possível terceira onda, o Brasil vacina em ritmo lento. A indisponibilidade de insumos para fabricação dos imunizantes e a falta de estratégias em nível governamental para garantir o comparecimento dos cidadãos aos postos de saúde se refletem em números. Até o dia 10 de junho, quando finalizamos esta reportagem, cerca de 480 mil pessoas haviam perdido a vida para a covid-19, e os casos confirmados passavam de 17 milhões, segundo dados do Ministério da Saúde. Por outro lado, 51.846.929 de pessoas haviam recebido a primeira dose — o equivalente a 24,48% da população brasileira, e menos da metade (23.418.325) garantiram a segunda.

Nas últimas semanas, a aplicação do imunizante foi feita em menor velocidade, segundo painel do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP. Mesmo com essa demora na fila, ainda há pessoas que deixam de se vacinar por terem preferência entre as três vacinas disponibilizadas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde. 

Entretanto, pesquisadores apontam que comparar as taxas de eficácia de cada imunizante não faz sentido, devido aos contextos particulares de obtenção desses dados. O mais racional, portanto, é apoiar-se nos resultados coletivos de uma vacinação em massa, que são positivos no caso dos três imunizantes aplicados. Efeitos colaterais também não devem ser levados em conta  — salvo contra indicações, pois reações graves são raríssimas e variáveis em cada indivíduo.

“Nós temos que tomar a vacina que está disponível”, garante Kalil. “A eficácia só é importante em nível individual quando uma imunização é feita de forma preventiva ou com poucos vírus circulando.”

Jorge Kalil – Foto: Agência Brasil

A “queridinha” da vez é a vacina produzida pela Pfizer/BioNTech e as razões vão desde os efeitos colaterais mais comuns reportados por quem tomou a vacina de Oxford/Astrazeneca até o receio quanto à efetividade da Coronavac em reduzir número de casos e hospitalizações. Porém, de acordo com Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (Incor) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), na qual atua como e professor de Imunologia Clínica e Alergia, o cenário atual de vacinação no País não permite que a população eleja um imunizante de preferência: “Nós temos que tomar a vacina que está disponível”, garante Kalil. “A eficácia só é importante em nível individual quando uma imunização é feita de forma preventiva ou com poucos vírus circulando.”

Letícia Kawano – Foto: Arquivo pessoal via Twitter

Letícia Kawano, médica pneumologista, pesquisadora do Instituto de Pesquisa do Hospital do Coração (HCor) e membro do grupo de desenvolvimento de diretrizes em tratamentos para covid-19 da Organização Mundial da Saúde (OMS), alerta que o mais importante, neste momento, é alcançar a imunidade coletiva, ou “de rebanho”. Essa forma de imunização acontece quando atinge-se uma porção de imunizados suficiente, numa população, para proteger os demais, de forma indireta, ao barrar a transmissão viral. “É isso que de fato vai controlar a doença, não a vacinação individual”, garante. “Se as pessoas ficam adiando sua vacinação porque querem receber essa ou aquela vacina, isso posterga a proteção de toda a população.”

Letícia usa como exemplo o projeto S, realizado pelo Instituto Butantan em Serrana, cidade que integra a região metropolitana de Ribeirão Preto. Lançado em fevereiro deste ano, teve como objetivo aplicar a Coronavac nos moradores e, posteriormente, analisar o impacto da imunização na redução de casos de covid-19 e no controle da pandemia. Os resultados, divulgados em 31 de maio, mostraram que 27.160 pessoas tomaram as duas doses, ou seja, 95% da população. Houve uma redução de 95% dos óbitos, de 86% das hospitalizações e de 80% dos casos sintomáticos da doença.

Outro dado mostrou que, quando 75% da população estava imunizada, a proteção era estendida aos não vacinados. “Isso mostra que, mesmo quando se utiliza uma vacina que é boa (ou suficiente) em larga escala, se controla a doença”, pontua a Letícia. 

Em nível internacional, o pesquisador Jorge Kalil exemplifica a importância da vacinação em massa com países que aplicam imunizantes também usados no Brasil. Em Israel, as medidas de restrição para contenção da transmissão viral foram retiradas após o sucesso do programa de vacinação que contou, em sua maior parte, com a vacina da Pfizer. No país, mais da metade da população está completamente imunizada e os casos graves da doença quase eliminados. Já na Escócia, que contou também com as doses da Astrazeneca, o cenário é semelhante. “ Mesmo sem 100% de eficácia, as vacinas aplicadas no Brasil fornecem grande proteção, principalmente quando usadas em grande porção da população”, completa.

Imunidade Coletiva

Imunizantes aprovados para uso no Brasil

As três vacinas disponíveis para os brasileiros são a Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac; a AstraZeneca/Oxford, fabricada em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); e a Pfizer/BioNTech, que já possui o registro definitivo para uso no Brasil, concedido pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Todas elas foram testadas no País e se mostraram efetivas em reduzir hospitalizações, óbitos e internações e a eficácia ficou entre 50,38 a 95%.

Apesar dessa variação, todos os especialistas ouvidos pelo Jornal da USP garantem que é preciso cuidado ao comparar os estudos clínicos. “A Coronavac, por exemplo, foi aplicada no Brasil em 12.508 profissionais de saúde e a eficácia geral foi de 50,38%, número já esperado para vacinas de vírus inativo, que apresenta taxas inferiores às técnicas mais modernas — como de RNA mensageiro”, afirma Leonardo Costa, especialista em práticas baseadas em evidências científicas e comunicador em saúde. 

“O mais importante é que todo mundo vá se vacinar o mais rápido possível para conseguirmos controlar a pandemia. E que mais vacinas sejam disponibilizadas em larga escala”, ressalta Letícia Kawano

Costa continua: “A equiparação só pode ser feita utilizando os mesmos critérios de público e de condições, diferente do cenário no qual as vacinas são comumente comparadas ”, alerta. O estudo clínico da Coronavac, por exemplo, contou com quase sete vezes mais participantes do que o estudo da Pfizer, ambos feitos no Brasil, além de ter abrangido profissionais da saúde, que estão mais expostos ao vírus. Vale destacar que pesquisas em diferentes contextos observam diferentes resultados para o mesmo imunizante.

A Indonésia rastreou 128.290 profissionais de saúde na capital Jacarta, após a aplicação da Coronavac, realizada entre janeiro e março deste ano. Os resultados apontaram para uma proteção de 98% das mortes e 96% de hospitalização sete dias após a segunda dose. Além disso, 94% dos trabalhadores foram protegidos contra infecções sintomáticas.

Recentemente, a OMS aprovou a vacina produzida pelo Instituto Butantan para uso emergencial. “Havia muitas dúvidas sobre eficácia, mas a aprovação traz mais legitimidade para a vacina”, afirma Letícia. “O mais importante é que todo mundo vá se vacinar o mais rápido possível para conseguirmos controlar a pandemia. E que mais vacinas sejam disponibilizadas em larga escala”, ressalta. 

Vacinas para Covid-19 disponíveis no Brasil

CoronaVac

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A primeira a ser aprovada para uso emergencial no Brasil foi a Coronavac, em meados de janeiro de 2021. Produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, é uma vacina de vírus inativado que, quando aplicada, estimula a produção dos anticorpos necessários para combater a doença.

Astrazeneca

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Já a AstraZeneca/Oxford (ChAdOx1 nCoV-19 ou AZD122), produzida em parceria com a Fiocruz, um vetor viral (um adenovírus, conhecido por causar gripe em chimpanzés, não em humanos), que carrega parte do material genético do sars-cov-2. Dentro do organismo, estimula a produção de anticorpos e desencadeia a resposta imune celular, ativando outro tipo de célula, chamada de linfócito T citotóxico.

Pfizer

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A Pfizer desenvolveu uma vacina à base de RNA mensageiro (mRNA) para combater o vírus sars-cov-2. A sequência de RNA do vírus é introduzida nas células do organismo para que elas produzam uma proteína específica do vírus. Quando processada, o sistema imunológico produz anticorpos e resposta imune celular, com a ativação dos linfócitos T citotóxicos.

Fonte: Fiocruz e NEJM

Efeitos colaterais e contraindicações da vacinação

Os efeitos colaterais, que geralmente são notados até as primeiras 48 horas após a aplicação, são obstáculos para quem ainda tem dúvidas quanto à segurança da vacinação. Sintomas leves e moderados como inchaço no local da aplicação, fadiga, febre baixa e dores musculares e de cabeça são comumente relatados por quem se vacina contra a covid-19, mas, segundo a OMS, além de esperados, fazem parte do processo de imunização inerente a qualquer vacina. 

No Calendário de Vacinação instituído pelo Ministério da Saúde, as vacinas começam a ser aplicadas logo após o nascimento. Muitas delas causam diferentes efeitos adversos. A pentavalente protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e Haemophilus influenzae tipo b, é usada há anos no PNI para prevenção das respectivas doenças.  A “penta”, como também é chamada, é conhecida por causar sintomas leves e moderados. “É um fármaco aplicado no segundo mês de vida e deixa a criança bem incomodada”, afirma Katia Valverde, pediatra, alergista e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Apesar de variáveis entre os indivíduos, os efeitos adversos são esperados. “O que estamos observando com a vacinação contra a covid não tem nada de diferente com o que acontece com os imunizantes do nosso PNI”, completa.

Contenção viral

CoronaVac

Na cidade de Serrana, interior de São Paulo, com 75% da população vacinada, os casos sintomáticos se reduziram em 80%, hospitalizações em 86% e mortes em 95%

Astrazeneca

Na Escócia estudo mostrou que, quatro semanas após aplicação da primeira dose das vacinas da AstraZeneca e da Pfizer contra o coronavírus, o risco de hospitalização caiu 94% e 85%, respectivamente.
5,4 milhões de escoceses receberam a primeira dose.

Pfizer

Em Israel, as medidas de restrição para contenção da transmissão viral foram retiradas, após o controle da pandemia com mais da metade da população vacinada

“Das 20 milhões de pessoas que tomaram a vacina da AstraZeneca no Reino Unido e na União Europeia em 16 de março, 25 apresentaram coágulos nos vasos sanguíneos e nos que drenam o sangue do cérebro, mas se você contrair covid-19, a sua chance de morrer é de 1 em 100”, explica Leonardo Costa. “Se alguma vez na vida você fumou ou tomou pílula anticoncepcional, você já ‘brincou’ com esse risco.”

Mesmo assim, a Astrazeneca ficou estigmatizada por causar sintomas mais fortes, algo próximo à sensação de ressaca, no dia após a primeira dose, o que faz com que muitas pessoas aguardem a chegada de outro imunizante na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. Além disso, estudos europeus relataram que a vacina causou coágulos sanguíneos em algumas pessoas com contagens baixas de plaquetas. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) continua indicando a vacina, argumentando que os benefícios gerais superam os riscos. “Das 20 milhões de pessoas que tomaram a vacina da AstraZeneca no Reino Unido e na União Europeia em 16 de março, 25 apresentaram coágulos nos vasos sanguíneos e nos que drenam o sangue do cérebro, mas se você contrair covid-19, a sua chance de morrer é de 1 em 100”, explica Leonardo Costa. “Se alguma vez na vida você fumou ou tomou pílula anticoncepcional, você já ‘brincou’ com esse risco”.

Letícia defende que não se deve escolher entre as vacinas, muito menos utilizar efeitos adversos como critério. “A atenção deve ser em casos de contra indicações”, afirma. Assim como alguns estudos e casos relacionam a aplicação da Astrazeneca com o raríssimo desenvolvimento ou agravamento do quadro de trombose em mulheres jovens, a vacina Pfizer também foi ligada em casos pontuais de aumento do risco de reações anafiláticas por pessoas com histórico de alergia a medicamentos, picada de inseto e a alimentos. A especialista ressalta que qualquer dúvida deve ser sanada com seu médico. “Em um país onde falta vacina, esse não pode ser impedimento para se prevenir contra a covid-19, que está matando em grandes proporções. As pessoas devem se vacinar, porque, quando colocamos na balança, o benefício é gigantesco”, afirma.

Fonte: Jornal da USP

Recuperados de covid-19 não apresentam sequelas na visão, aponta estudo

Recuperar-se da fase aguda da covid-19 é motivo de comemoração, mas pesquisas apontam que a batalha não acaba mesmo após a alta. Os recuperados ainda correm o risco de terem sintomas persistentes como falta de ar, dor de cabeça, perda da força muscular e até fadiga. A ciência ainda questiona possíveis sequelas oftalmológicas, mas pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP adiantam que, ao analisar exames de 64 pacientes recuperados de covid-19, não encontraram sequelas nos olhos.

O estudo Ocular findings among patients surviving COVID-19 acaba de ser publicado pela revista Nature Scientific Reports, e traz a  avaliação oftalmológica completa de pacientes recuperados cerca de 80 dias após os primeiros sintomas. Todos os pacientes foram acompanhados pelos hospitais do Complexo Acadêmico de Saúde da FMRP, do Hospital das Clínicas da FMRP (HCFMRP) e da Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência do HCFMRP (Faepa), com média de internação de 15 dias, sendo que 90% deles apresentavam quadro clínico grave ou crítico. Os participantes passaram por avaliações que incluíram a visão, a superfície ocular e a pressão intraocular e foi observado também o fundo de olho para avaliar a arquitetura da retina, por exemplo.

“Recuperados de covid-19 que tiverem queixas oculares, como dor ou visão dupla, antes ou durante a infecção, devem procurar um oftalmologista para avaliação completa. Uma investigação de rotina no consultório médico pode auxiliar na detecção de problemas ou doenças oculares”, aponta a médica Rosália Antunes Foschini.

Rosália Antunes Foschini, médica do HCFMRP – Foto: Arquivo pessoal

“Detectamos que os recuperados apresentavam boa acuidade visual e a maior parte das queixas relacionadas à visão embaçada foi solucionada com prescrição de óculos. Foi percebido um leve aumento da pressão intraocular, abrindo espaço para a hipótese de ser consequência do uso de corticoides e estudos devem ser feitos para comprovar a causa. Em relação à catarata, dois participantes apresentaram, mas era um diagnóstico anterior à covid-19”, conta a médica Rosália Antunes Foschini, do HCFMRP e coordenadora do trabalho.

Os resultados também são positivos em relação à retina, que é o tecido responsável por receber o estímulo luminoso e transformá-lo em estímulo nervoso para enviar a formação de imagens ao cérebro. “Em nosso estudo foram encontradas alterações discretas, mas há relatos de casos graves envolvendo pacientes que tiveram a doença. Por isso, é preciso continuar atento para o aparecimento do embaçamento visual e novos estudos devem ser feitos para concluir quais são as sequelas oftalmológicas”, afirma o professor Rodrigo Jorge, da FMRP e coautor do trabalho.

Professor Rodrigo Jorge, da FMRP – Foto: Divulgação

A médica Rosália recomenda ainda que recuperados de covid-19 que tiverem queixas oculares, como dor ou visão dupla, antes ou durante a infecção, devem procurar um oftalmologista para avaliação completa. “Uma investigação de rotina no consultório médico pode auxiliar na detecção de problemas ou doenças oculares”, completa.

O estudo, que faz parte do projeto Recovida, contou também com autoria dos professores Fernando Bellissimo Rodrigues, Eduardo Melani Rocha, Valdes Roberto Bollela; da médica Ílen Ferreira Costa e da fisioterapeuta Livia Pimenta Bonifácio, todos da FMRP.

Investigação das sequelas de covid-19

Fernando Bellissimo Rodrigues, do Departamento de Medicina Social da FMRP – Foto: Divulgação FMRP/USP

O artigo integra diversos estudos do projeto Recovida, que acompanha sobreviventes da covid-19 nas formas leves e graves desde maio de 2020. “É uma doença nova e a história natural está sendo descrita para saber com o que estamos lidando. Existe um conceito na área de reabilitação que quanto mais precoce for uma intervenção para reabilitar, maiores são as chances de bons resultados para os pacientes. Estamos estudando para avaliar se isso também é verdadeiro para a covid-19”, conta o professor Fernando Bellissimo Rodrigues, da FMRP e coordenador do Recovida.

Para o médico infectologista, os estudos poderão auxiliar na busca por medidas preventivas para sequelas. Por exemplo, se os pacientes apresentam dificuldades de mobilidade devido aos dias internados pela doença, será possível fazer estudos para entender o que favoreceu essa sequela e buscar novas formas de solucionar essa questão.

Além disso, o especialista destaca que não é preciso fazer uma investigação em todos os recuperados de covid-19. “Não existe a necessidade de rastrear sequelas se a pessoa estiver se sentindo bem, após a covid-19. Quando há problemas, eles são bem evidentes”, conta.

Mais informações: e-mail antunesfoschini@gmail.com com a médica Rosália Antunes Foschini

Fonte: Jornal da USP

Projeto S: imunização em Serrana faz casos de Covid-19 despencarem 80% e mortes, 95%

A imunização de toda a população adulta do município de Serrana, no interior paulista, com a vacina CoronaVac, do Butantan, fez os casos sintomáticos de Covid-19 despencarem 80%, as internações, 86%, e as mortes, 95% após a segunda vacinação do último grupo (veja os intervalos de confiança abaixo). Essa é a principal conclusão do Projeto S, estudo clínico de efetividade inédito no mundo realizado pelo instituto na cidade. A redução foi constatada por meio da comparação dos dados desde o início do projeto – até completar a vacinação de todos os grupos – com o restante do trimestre avaliado (fevereiro, março e abril de 2021).

Os resultados também mostraram que a vacinação protege tanto os adultos que receberam as duas doses do imunizante quanto as crianças e adolescentes com menos de 18 anos, que não foram vacinados. “A redução de casos em pessoas que não receberam a vacina indica a queda da circulação do vírus. Isso reforça a vacinação como uma medida de saúde pública, e não somente individual”, explica o diretor de ensaios clínicos do Instituto Butantan, Ricardo Palacios, também diretor do estudo.

Outra conclusão importante é a avaliação da incidência da doença em Serrana na comparação com as cidades vizinhas. Serrana tem cerca de 10 mil moradores que trabalham em Ribeirão Preto diariamente. Porém, enquanto Ribeirão Preto e cidades da região vêm apresentando alta nos casos de Covid-19, Serrana manteve taxas de incidência baixas graças à vacinação. Ou seja, além da queda das infecções, os moradores que transitam em outras cidades não trouxeram um incremento relevante nos casos. O Projeto S criou um “cinturão imunológico” em Serrana, uma barreira coletiva contra o vírus, reduzindo drasticamente a transmissão no município.

“As importantes conclusões do estudo poderão embasar as estratégias de imunização no Brasil e no mundo, e oferecem uma esperança do controle da pandemia com vacinas como a CoronaVac”, afirma o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas. “Não precisamos criar ilhas para atingir a imunidade da população”, complementa Ricardo Palacios. “Nós conseguimos satisfazer a vontade das pessoas de retomarem suas vidas quando a vacina é ofertada. Isso nos gera uma luz de esperança”, completa.

A pesquisa, pioneira no mundo, foi desenvolvida pelo Butantan, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e avaliada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Foi realizada em parceria com a Secretaria de Saúde e a Prefeitura Municipal de Serrana. O objetivo do projeto é entender qual a efetividade da CoronaVac, ou seja, como a imunização de toda uma população pode afetar o curso da epidemia. Na prática, entender como a vacina se comporta no mundo real.

O método utilizado para o ensaio clínico é chamado de implementação escalonada por conglomerados (stepped-wedge trial). Serrana foi dividida em 25 áreas, formando quatro grupos: verde, amarelo, cinza e azul – que receberam o imunizante seguindo esta ordem. A vacina foi ofertada a todos os maiores de 18 anos elegíveis para o estudo nestas áreas, de forma sequencial, em quatro etapas. Entre 17 de fevereiro e abril deste ano, ao longo de oito semanas, cerca de 27 mil moradores do município receberam o esquema vacinal completo: duas doses da CoronaVac com intervalo de 28 dias entre a primeira e a segunda. Isso representou uma cobertura próxima a 95% da população adulta, segundo censo de saúde feito previamente pelo Butantan.

Ricardo Palacios explica que o método de escalonamento permitiu avaliar e comparar as quatro áreas vacinadas. “Percebemos que os fenômenos observados não acontecem aleatoriamente, mas se repetem nos quatro grupos em momentos diferentes”, afirma. “O resultado mais importante foi entender que podemos controlar a pandemia mesmo sem vacinar toda a população. Quando atingida a cobertura de 70% a 75%, a queda na incidência foi percebida até no grupo que ainda não tinha completado o esquema vacinal.”

“A vacina é segura, eficaz, eficiente, de altíssima qualidade, e contribui para prevenir o desenvolvimento da doença, complicações e óbitos entre os infectados. Agora também sabemos que ela provoca efeito benéfico em uma população inteira, protegendo tanto os vacinados quanto os não vacinados e reduzindo a circulação viral de forma expressiva”, conclui Dimas Covas.

Intervalos de confiança dos índices de redução:

Casos sintomáticos

– Queda de 80% (IC95 76,9% – 82,7%) 

Internações

– Queda de 86% (IC95 74,1% – 92,3%)

Mortes

– Queda de 95% (IC95 62,7% – 99,3%)

Fonte: Instituto Butantan

Durante a pandemia não devemos nos esquecer da dengue, chikungunya e zika

Dengue, chikungunya e zika são doenças típicas do final do verão e outono em função do excesso de chuva, com isso se repetem todos os anos, de forma alarmante, justamente pela falta de cuidados da população. É importante reforçar a orientação de que não se deve deixar recipientes com acúmulo de água.

A infectologista Amanda Lara é responsável pelo Ambulatório dos Viajantes do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e orienta para que a população mantenha as mesmas condutas de todos os anos para prevenir a doença.

Os casos de chikungunya também aumentaram muito nos últimos anos, mas a dengue ainda prevalece na maioria das cidades do Brasil. O grande responsável pelos números dessas doenças é o Aedes aegypti, também chamado popularmente de mosquito da dengue, responsável pela transmissão de várias doenças para o homem – estão na lista febre amarela e zika.

A infectologista diz que é importante diferenciar os sintomas dessas doenças, principalmente em tempos de pandemia de coronavírus. “Os sintomas podem se confundir com os de outras doenças. Tanto a dengue como a chikungunya são doenças febris, com dores no corpo e cefaleia”, alerta. Entretanto, enquanto a dengue é identificada pelas dores nos corpo, na chikungunya o destaque são as dores e inchaço nas articulações. Já a zika se destaca por uma febre mais baixa (ou ausência de febre), muitas manchas na pele e coceira no corpo.

Acesse o áudio clicando aqui.

Fonte: Jornal da USP

Exercício físico pode ser um aliado para tratar a fraqueza muscular pós-covid

Pesquisas da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP realizadas com a enzima ECA2 (enzima conversora de angiotensina II) mostram que o exercício físico pode ser uma excelente estratégia terapêutica não farmacológica para combater a miopatia esquelética (dificuldades cardiorrespiratórias, fraqueza muscular, fadiga e cansaço) após a covid-19. Os sintomas podem ocorrer por semanas ou meses e dificultam a realização de movimentos, até mesmo os mais corriqueiros do dia a dia, como andar, levantar e comer.

“A enzima ECA2 funciona como receptor na membrana celular e serve como porta de entrada para o sars-cov-2, ou seja, a proteína S [spike ou espícula] do vírus reconhece e se liga diretamente ao receptor ECA2”, explica ao Jornal da USP a professora Edilamar Menezes de Oliveira, coordenadora do Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular do Exercício da EEFE e que, desde 2010, estuda a ECA2.

A pesquisadora diz que, ao entrar nas células, o vírus danifica a estrutura dessa enzima, tirando dela sua funcionalidade de balanceamento do Sistema Renina Angiotensina (SRA). “O que o exercício físico faz, sobretudo a atividade aeróbica, é resgatar essa funcionalidade”, diz.

A importância dessa enzima está no fato de ela clivar (converter) a angiotensina II, que está associada a doenças cardiovasculares (hipertensão, arteriosclerose e infarto do miocárdio) em angiotensina 1-7 (Ang-1-7), que possui funções opostas no SRA, que é o de evitar efeitos deletérios ao sistema cardiovascular.

Segundo a pesquisadora, a ECA2 está presente em muitos tecidos do corpo, incluindo a musculatura esquelética, o que justifica o comprometimento de vários órgãos quando a pessoa é infectada pelo coronavírus.  “A miopatia esquelética que afeta os músculos do tórax pode contribuir para a insuficiência ventilatória além da oxigenação devido à pneumonia por sars-cov-2. O aumento da expressão dessa molécula (ECA2) em pacientes pode influenciar inclusive na gravidade da doença”, diz.

Edilamar Menezes de Oliveira, coordenadora do Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular do Exercício, da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE), onde é pesquisada a correlação entre ECA2 e os danos causados pela covid-19 – Foto: Arquivo pessoal

“Ao entrar nas células, o vírus danifica a estrutura da ECA2, tirando dela sua funcionalidade de balanceamento do Sistema Renina Angiotensina (SRA). O que o exercício físico faz, sobretudo a atividade aeróbica, é resgatar essa funcionalidade”

 Em 2010, um estudo do grupo foi pioneiro em identificar em animais a presença dessas enzimas nos músculos. A pesquisa originou o artigo Characterization of angiotensin-converting enzymes 1 and 2 in the soleus and plantaris muscles of rats e foi publicado no Brazilian Journal of Medical and Biological Research. 

Recentemente, os pesquisadores escreveram um novo artigo sobre a correlação entre a enzima ECA2 e a suscetibilidade a miopatias pós-covid, Sars-CoV-2 and Skeletal Muscle ACE2: Exercise contribution, publicado no Journal of Applied Physiology eincluído na base de dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e na coletânea de artigos sobre o tema Commentaries on Viewpoint: The interaction between SARS-CoV-2 and ACE2 may have consequences for skeletal muscle viral susceptibility and myopathies.

ECA2 em ratos obesos

Um estudo que resultou na dissertação de mestrado Efeitos do treinamento físico aeróbio sobre o sistema renina angiotensina cardíaco e sistêmico de ratos obesos, apresentada pelo pesquisador Diego Lopes Mendes Barretti, sob orientação da professora Edilamar, já havia mostrado, em 2010, que ratos obesos, depois de serem submetidos a treinamento físico, tiveram alterados os componentes do Sistema Renina Angiotensina em seus organismos.

Após um treinamento de exercício físico (cinco sessões semanais de 60 minutos, por dez semanas), os pesquisadores observaram nos animais melhora em vários índices: houve aumento da enzima ECA2 no coração, redução do peso corporal, dos triglicérides e da frequência cardíaca, além de baixar o LDL (colesterol ruim) e aumentar o HDL (colesterol bom).

Funcionamento do Sistema Renina Angiotensina (SRA)

Para compreender a importância da enzima ECA2 no organismo, Edilamar conta como acontece o funcionamento do complexo do SRA, do qual a ECA2 faz parte. Esse sistema atua na manutenção da pressão arterial, equilibrando a quantidade hídrica e sódica no organismo, o que acaba afetando o funcionamento de outros órgãos, como o coração, vasos sanguíneos, rins e músculo esquelético. O sistema é ativado quando a pressão fica muito baixa ou quando há bastante perda de líquidos, desencadeando uma série de reações orgânicas para que eles voltem a se estabilizar.

Distribuição da ECA2 no Corpo

Imagem cedida pelo pesquisador

O professor Tiago Fernandes, um dos pesquisadores do Laboratório de Bioquímica, explica que a regulação do SRA é feita pelas enzimas ECA1 e ECA2, que cumprem papéis inversos de compensação. A primeira promove a vasoconstrição e, consequentemente, o aumento da pressão arterial; e a segunda, vasodilatação e diminuição da pressão arterial. O pesquisador diz que camundongos deficientes de receptores ECA2 exibem disfunções sistólicas cardíacas, aumento da pressão arterial, fibrose intersticial do miocárdio (degeneração do tecido), disfunção endotelial (tipo de doença arterial), suscetibilidade aumentada à trombose intravascular, doença renal crônica, anormalidades metabólicas e várias outras anormalidades biológicas que regulam o sistema cardiovascular. Quando a ECA2 é ativada, há a prevenção dos efeitos deletérios nas células e organismos.

Tiago Fernandes, professor da EEFE e pesquisador do Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular do Exercício – Foto: arquivo pessoal

A angiotensina II (Ang II), que é o peptídeo bioativo mais representativo no SRA, tem ampla participação na progressão de doenças cardiovasculares, como hipertensão, infarto do miocárdio e insuficiência cardíaca. É a Ang II que promove a vasoconstrição nos vasos sanguíneos e eleva a pressão arterial. Porém, a ECA2 é capaz converter a Ang II para Ang 1-7, que produz efeito oposto ao da Ang II, exercendo uma gama de funções benéficas ao organismo.

Efeitos da ECA2 na covid-19

Figura modificada de Circulation Research 2020;126:1456

O balanço hemodinâmico do sistema acontece pela ação equilibrada da ECA1 e ECA2. Se há ECA1 aumentada, vai ser produzida maior quantidade de angiotensina II e, consequentemente, vai haver maior vasoconstrição e problemas de pressão alta. Se houver mais ECA2, esta irá transformar Ang II em Ang 1-7 e haverá maior vasodilatação e menos patologias, diz o pesquisador.

A professora Edilamar afirma que ainda há muitas perguntas sem respostas sobre a infecção pelo sars-cov-2, no entanto, devido ao papel central que a ECA2 tem no mecanismo de entrada do vírus no organismo, a compreensão de suas funcionalidades é fundamental para o entendimento das alterações fisiopatológicas dessa doença.

As pesquisas contam com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) via Programa de Excelência Acadêmica (Proex).

Mais informações: e-mails edilamar@usp.br, com Edilamar Menezes de Oliveira; e tifernandes@usp.br, com Tiago Fernandes; paulabassi@usp.br, com Paula Bassi, no setor de Comunicação da EEFE

Fonte: Jornal da USP

Reabilitação precoce em UTIs covid diminui déficits físicos de pacientes


A reabilitação precoce de pacientes com covid-19 ainda nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) minimizaria déficits físicos, depois da alta hospitalar. A reabilitação fisioterápica consiste em exercícios cardiorrespiratórios com bicicletas, treinos de sentar e levantar da cama e estabelecimento de uma rotina de exercícios com graduação de peso, andar, dentre outras. 

Um estudo da USP realizado em quatros hospitais de São Paulo, dois públicos e dois particulares, mostrou que os doentes graves por covid-19 internados em UTIs apresentam déficits físicos no momento da alta hospitalar e que a reabilitação poderia ser uma estratégia para que eles pudessem voltar para casa com melhor forma física, com menos demanda de acompanhamento fisioterapêutico e em condições de realizar suas atividades funcionais e laborais, de forma independente.

A pesquisa, que ainda está em andamento, já acompanhou 250 pessoas em três momentos distintos: durante o período de internação, na UTI e na enfermaria, e três meses após terem recebido alta.

Em geral, pessoas acometidas por doenças graves que permaneceram por longo período em UTIs, depois de receberem alta, acabam se tornando incapazes de realizar algumas tarefas que antes eram comuns na sua rotina, podendo esses efeitos perdurar por muito tempo. Sentem dificuldades para andar e/ou realizar atividades corriqueiras do dia a dia como tomar banho ou ir sozinhos ao banheiro, explica ao Jornal da USP a fisioterapeuta Débora Schujmann, que faz parte do grupo de pesquisa do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional (Fofito) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

Pesquisadores envolvidos na pesquisa: Débora Schujmann, Carolina Fu e José Eduardo Pompeu – Foto: Arquivo Pessoal

Segunda a pesquisadora, a reabilitação precoce, o mais cedo possível, começando ainda na UTI, favorece um melhor retorno das funcionalidades, menos dias de ventilação mecânica, diminuição do delirium (distúrbios de consciência, atenção e cognição), da fraqueza muscular e dos dias de internação. Mesmo para os pacientes em estado grave, hipoxêmicos (baixo nível de oxigênio no sangue), com uso de ventilação mecânica, a reabilitação precoce deve ter início ainda na UTI, se os critérios de estabilidade e segurança forem observados e a prescrição dos exercícios for individualizada, diz.

Cuidados fisioterápicos iniciados de forma precoce, em torno de até dois dias após a estabilização do paciente poderiam ser uma estratégia para evitar ou minimizar os impactos individuais (atividades laborais), coletivos (custos com saúde) e econômicos (retorno ao trabalho). – Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora

A pesquisa, que vai até o final da pandemia, pretende acompanhar ao todo 400 pacientes de quatro hospitais referenciados para SARS-CoV-2: Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo; Hospital das Clínicas de São Bernardo do Campo; Hospital do Coração (HCOR), em São Paulo; e o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. O objetivo é avaliar a função física de doentes graves por covid-19 no momento da alta da UTI e entender quais os principais déficits físicos que esses pacientes apresentavam quando tinham alta, e se um início precoce dos exercícios na UTI está relacionado a melhores resultados físicos.

Sequelas da covid 

Dos 250 pacientes que participaram da pesquisa, apenas 36% saíram andando sozinhos, sem precisar de ajuda; 37% precisaram de ajuda de alguém; e 27% não conseguiram sequer andar. De cada dez pacientes, seis saíram sem conseguir andar sozinhos, sendo que três precisaram de ajuda e os outros três não andaram. Somente quatro conseguiram andar sozinhos na alta da UTI.  

  • Anda sozinho 36%
  • Anda com ajuda 37%
  • Não anda 27%
  • Consegue tomam banho sozinho 65%
  • Não usa o banheiro sozinho 56%
  • Suporte para se vestir 44%

Sobre algumas atividades específicas avaliadas, foi verificado que 35% não conseguiam tomar banho sozinhos. E, de cada cinco pacientes, quase dois precisavam de ajuda. Para se vestir, 44% precisaram de algum tipo de suporte. Para ir ao banheiro, 56% dos pacientes não conseguiam usá-lo sozinhos. A cada dez pacientes, cinco precisariam de apoio e 52% dependeriam de ajuda para se sentar no vaso sanitário.

Síndrome Pós-Terapia Intensiva

Segundo a fisioterapeuta, alguns estudos indicam que 5% dos pacientes acometidos por covid necessitem de internação em UTI, área hospitalar em que o tratamento agudo de doenças graves, associado à inatividade, traz uma combinação de fatores que pode levar os pacientes a desenvolver a Síndrome Pós-Terapia Intensiva (SPTI), com deficiências ou piora no estado de saúde física, cognitiva ou mental. O declínio funcional, por exemplo, implica a incapacidade do indivíduo de cuidar de si próprio e viver de forma independente. Na UTI, o uso de corticoides, ventilação mecânica prolongada, bloqueadores neuromusculares e imobilidade estão entre os principais fatores do surgimento da SPTI.

Os cuidados fisioterápicos iniciados de forma precoce, em torno de até dois dias após a estabilização do paciente, podem ser uma estratégia para evitar ou minimizar os impactos individuais (atividades laborais), coletivos (custos com saúde) e econômicos (retorno ao trabalho), conclui a pesquisadora.

Mais informações: e-mail debora.schujmann@fm.usp.br, com Débora Schujmann

Fonte: Jornal da USP

Vídeos sobre COVID-19 com foco nas pessoas com deficiência do Ministério da Saúde e UNA-SUS

Segundo os dados do Censo 2010, corroborados na Nota técnica IBGE 01/2018, o Brasil possui 12,7 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, o que corresponde a 6,7% da população brasileira. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS-2013), por sua vez, estimou que 6,2% da população brasileira possuía pelo menos uma das seguintes deficiências: auditiva, física, intelectual e visual.

Para informar e acolher essa população de forma integral nesse período de pandemia, o Ministério da Saúde – por meio das Secretarias de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES) e de Atenção Especializada em Saúde (SAES) – lançou, em parceria com a UNA-SUS, cinco vídeos voltados para os seguintes públicos:

1) Cuidado à pessoa com mobilidade reduzida no contexto da COVID-19;​

2) Cuidado à pessoa com deficiência auditiva no contexto da COVID-19;

3) Cuidado à pessoa com deficiência visual no contexto da COVID-19;

4) Cuidado à pessoa com deficiência Intelectual / Transtorno do Espectro Autismo (TEA) / Deficiências Múltiplas no contexto da COVID-19;

5) Cuidado à pessoa com limitações na comunicação no contexto da COVID-19;

De acordo com o coordenador-geral de saúde da pessoa com deficiência, Angelo Roberto Gonçalves, a produção desses vídeos foi motivada pela necessidade de adequar e disseminar informações acessíveis relativas aos cuidados em saúde para pessoas com deficiência no contexto do emergência decorrente da pandemia pela COVID-19. “Assim como a população geral, as pessoa com deficiência precisam ter garantia de que as orientações lhes sejam repassadas de forma acessível e inclusiva, trazendo também informações específicas às suas condições de saúde”, destaca.

Segundo Gonçalves, a produção dos vídeos buscou atender também às solicitações apontadas pelo movimento social das pessoas com deficiência em várias instâncias das quais a Coordenação Geral de Saúde da Pessoa com Deficiência (CGSPD) participou nos últimos meses.

“A nossa expectativa é de que a divulgação desses vídeos seja em grande extensão. De forma que todas pessoas com deficiência, bem como suas famílias, cuidadores, profissionais da saúde, educação, assistência social, além da sociedade como um todo possam conhecê-las e incorporar às suas rotinas diárias”, enfatiza.

Para saber mais sobre esses e outros recursos educacionais sobre COVID-19, acesse: https://www.unasus.gov.br/especial/covid19/

Fonte: UNA-SUS

Máscaras transparentes aumentam em 10% a compreensão da fala

O uso de máscaras transparentes durante a comunicação aumenta em cerca de 10% a compreensão da fala tanto entre indivíduos com perda auditiva quanto entre pessoas com audição normal, aponta estudo divulgado na revista Ear and Hearing.

A pesquisa foi conduzida na Universidade do Texas, em Dallas (Estados Unidos), com a participação de Regina Tangerino, professora da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP), e apoio da FAPESP.

“Nossos dados mostram que o uso de máscaras transparentes pode facilitar a comunicação para todos, minimizando o estresse e melhorando a interação. Mas, claro, a proteção deve ser a preocupação primária neste momento e, no Brasil, ainda não há nenhum modelo com eficácia comprovada à venda”, diz Tangerino à Agência FAPESP.

Segundo a pesquisadora, nos Estados Unidos, dois modelos de máscara com visor transparente na região dos lábios já foram certificados pela Food and Drug Administration (FDA, agência de vigilância sanitária norte-americana) e pelo Centro para Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês). “Um dos nossos objetivos é chamar atenção para a importância do tema”, afirma a pesquisadora.

Ainda no início da pandemia, em 2020, o grupo disponibilizou na internet um conjunto de vídeos com 40 minutos de duração, nos quais uma pesquisadora profere diversas sentenças em meio a ruídos de fundo. Parte das frases foi gravada sem máscara, parte com uma máscara transparente na região da boca e parte com uma máscara de tecido opaco. Os 154 voluntários, recrutados por meio de rede social ou e-mail, foram classificados em três grupos: audição normal, suspeita de perda auditiva ou perda auditiva confirmada (com ou sem uso de implante coclear ou aparelhos auditivos). Todos foram orientados a assistir aos vídeos em um local silencioso e a digitar o que tinham entendido após cada frase. Os participantes também tinham de ranquear o nível de confiança ao responder e informar o quanto tiveram de se concentrar para entender o que foi dito. Ao final, o escore de cada voluntário foi calculado.

O percentual médio de acerto das sentenças pronunciadas sem máscara, considerando a média dos três grupos de voluntários, foi de 83,8%. No caso das frases proferidas com máscara transparente, o percentual médio foi de 68,9% – 10% maior do que o das frases proferidas com máscara opaca (58,9%).

“Essa diferença de 10% é estatisticamente significativa e esse benefício pode ser estendido não só para o reconhecimento da fala, pois os participantes se sentiram mais confiantes e fizeram menos esforço para se concentrar quando usavam a máscara transparente. Em outra pesquisa, realizada no Reino Unido com 460 pessoas, os autores observaram que as máscaras opacas afetam a fadiga, a ansiedade e as emoções tanto de quem está ouvindo como de quem está falando”, comenta Tangerino.

Pista visual

Para ter certeza de que a diferença observada estava relacionada com a pista visual (a movimentação da boca vista pelo visor transparente) e não com questões acústicas (como o fato de um tipo de máscara abafar mais o som do que outro), um segundo teste foi conduzido com 29 voluntários. Nesse caso, somente o áudio dos vídeos usados no primeiro experimento foi enviado aos participantes. Desse modo, eles não sabiam quais frases foram gravadas com ou sem máscara.

“Nesse caso, o percentual médio de acerto foi menor para as sentenças proferidas com máscara transparente quando comparada com a opaca, confirmando que as pistas visuais foram determinantes para o melhor desempenho no primeiro estudo, superando a degradação do som gerada pelo uso das máscaras”, conta Tangerino.

A pesquisadora defende que a produção de máscaras transparentes certificadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) seja estimulada no Brasil. Até o momento, somente estão disponíveis no país modelos feitos de vinil, considerados ineficazes para barrar a transmissão do novo coronavírus.

O artigo Communicating During COVID-19. The Effect of Transparent Masks for Speech Recognition in Noise pode ser lido em https://journals.lww.com/ear-hearing/Abstract/9000/Communicating_During_COVID_19__The_Effect_of.98518.aspx.

Fonte: Agência FAPESP

Pesquisa mostra que pacientes com Alzheimer têm até três vezes mais chances de desenvolver quadros graves de covid-19

Os pesquisadores Sergio Verjovski-Almeida, professor titular do Instituto de Química da USP, e Sergio Ferreira, professor titular de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), concluíram que pacientes com demência  — ou, especificamente, com doença de Alzheimer  — apresentam risco três vezes maior de infecção pelo vírus da covid-19 do que pacientes sem essa condição. A pesquisa ainda aponta que pacientes portadores de demência têm maiores chances de serem hospitalizados, com maior gravidade de quadro clínico e que a chance de óbito é duas a três vezes maior quando comparados aos livres de demência e também hospitalizados.

O estudo identifica um possível novo grupo de risco em meio à pandemia e revela a urgência dos serviços de saúde dedicarem atenção especial aos portadores de doenças degenerativas do sistema nervoso. O artigo Dementia is an age-independent risk factor for severity and death in COVID-19 inpatients foi publicado nesta quarta-feira, na revista científica Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association (https://alz-journals.onlinelibrary.wiley.com/journal/15525279).

A demência é a descrição de um conjunto de sintomas de doenças degenerativas do sistema nervoso, que implicam a perda progressiva das funções do cérebro, o que compromete a memória, habilidades cognitivas e o raciocínio, por exemplo. A forma mais comum dos casos é a doença de Alzheimer, que afeta a memória e é o principal fator encontrado pelos pesquisadores que explica a observação de casos mais graves de covid-19 entre idosos.

Sergio Verjovski-Almeida – Foto: Lattes

Para isso, os cientistas analisaram em larga escala as informações de um banco de dados de saúde do Reino Unido, o UK Biobank, que registra desde 2006, para cerca de 500 mil voluntários, os atendimentos no serviço público de saúde britânico. Ao avaliar um grande número de indivíduos, com históricos detalhados de doenças preexistentes e em um país com alta testagem de covid-19, foi possível correlacionar comorbidades com maiores incidências de casos e óbitos pelo coronavírus.

Os dados de idosos foram avaliados por estratificação etária (65 a 74, 75 a 79 e de 80 acima) e notou-se que a idade não era um fator determinante para o agravamento dos casos. No que se refere às comorbidades, os dados mostraram que, enquanto condições de alta pressão arterial aumentaram em no máximo 30% as complicações clínicas e histórico de câncer e de asma diminuíam a incidência de casos, portadores de demência apresentavam um risco significante de infecção, agravamento e óbito. Em média, em portadores de Alzheimer, havia três vezes mais chances de infecção e de agravamento dos casos quando hospitalizados, podendo levar a óbito. Os resultados ainda mostram que, na faixa etária mais elevada, o risco aumentava em até seis vezes.

Sergio Ferreira – Foto: Arquivo Pessoal

“O mais interessante é que os dados revelam que esse aumento não se dá devido às condições de cuidado, nem de manifestação da doença”, afirma Verjovski-Almeida. O pesquisador explica que essa diferença comparativa não ocorre pelos prejuízos às habilidades cognitivas, de compreensão e locomoção comprometidas no Alzheimer ou Parkinson, que poderiam ser relacionadas ao descumprimento das medidas de higiene. E também não se trata de uma maior exposição vinda de suporte médico hospitalar.

Estudos já relacionam demência e casos de covid-19, mas atribuindo estes últimos como fator propiciador de doenças degenerativas. O estudo é inédito em apontar o inverso: a evidência é de que podem existir aspectos genéticos do Alzheimer que levam ao agravamento significativo da covid-19 e destaca a importância de direcionar o atendimento de saúde aos cuidados desse grupo, o que, segundo Verjovski-Almeida, pode evitar óbitos.

Mas, como o Alzheimer implica a piora dos quadros de covid-19 ainda não é claro.

“Sabendo-se que o Alzheimer está relacionado com uma inflamação dos vasos do cérebro, a nossa hipótese é que essa inflamação facilitaria a permeabilidade do vírus no cérebro, o que permitiria a infecção do sistema nervoso central.”Sérgio Verjovski- Almeida

Verjovski-Almeida destaca que uma raiz genética pode estar por trás dessa relação. O próximo passo da pesquisa é avaliar alterações de genes que se correlacionem com os pacientes mais graves ou que foram a óbito utilizando outra informação fornecida pelo UK Biobank: o sequenciamento genético dos pacientes. De acordo com ele, essa é uma das maiores vantagens de fazer uso do banco britânico, que, diferente dos desenvolvidos recentemente no Brasil, apresenta um histórico longo e detalhado. “Quando esse banco foi criado, não se imaginava que teria esse tipo de uso, mas está tendo”, afirma.

“É importante investir em pesquisa em banco de informações clínicas e genéticas que permitam informações como essa, antes das crises. Esse é um exemplo da importância de pensar em investimento em saúde a longo prazo”, completa.

Fonte: Jornal da USP

Consumo excessivo de vitaminas pode causar danos à saúde

Durante a pandemia do novo coronavírus, um assunto ganhou destaque: a suplementação de nutrientes, em especial das vitaminas D e C, supostamente para evitar a covid-19. O cenário vem preocupando as autoridades de saúde, que alertam para os prejuízos da ingestão excessiva dessas substâncias. Conforme adianta Helio Vannucchi, professor titular sênior da Divisão de Nutrologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, além dos riscos do consumo descontrolado, “ao que se conhece atualmente, nenhuma vitamina tem ação de tratamento ou prevenção na pandemia por covid-19”. 

A vitamina D, já relacionada com a melhora da resposta imunológica, quando ingerida em excesso “pode causar aumento exagerado de íons de cálcio” que, depositados nas artérias e em órgãos como o rim, causam “lesões permanentes”;  por isso, seu uso “não está inteiramente aceito”, conta Vannucchi. O indivíduo intoxicado por esse nutriente em excesso pode apresentar sintomas como náuseas, vômitos e aumento da pressão arterial. Segundo o especialista, é recomendado o consumo de 600 unidades internacionais diárias do nutriente, através de fontes alimentares, e 800 unidades para idosos e gestantes. Além disso, 15 minutos de exposição solar diariamente são suficiente para o organismo absorver a quantidade necessária de vitamina D.

Exposição solar diária por aproximadamente 15 minutos é o necessário para absorver a vitamina D – Imagem: Pixabay

A vitamina C, que também já foi especulada na prevenção do novo coronavírus, também tem eficácia descartada. Em excesso, a vitamina pode causar diarreia e, cronicamente, causar cálculos urinários. Nesse sentido, o professor lança um alerta à população: a suplementação vitamínica deve ser realizada apenas diante do diagnóstico clínico de deficiência, necessitando confirmação de “dosagens em laboratório”. É que cada nutriente deve ser absorvido pelo organismo em uma quantidade específica; quando um “limite superior” é ultrapassado, “a continuidade de ingestão em maiores doses pode provocar a hipervitaminose”, adianta o professor.

Vannucchi ainda informa que a intoxicação vitamínica acontece mais facilmente com as vitaminas lipossolúveis, A, D, E e K, que se dissolvem em gorduras, sendo seus excessos de difícil eliminação pelo organismo. Assim, como cada nutriente tem funções distintas, o excesso de cada um provoca consequências diferentes. Enquanto megadoses de vitamina E podem levar a fenômenos hemorrágicos e ao aumento da mortalidade no longo prazo, a vitamina K está ligada à “coagulação sanguínea”, afirma o especialista.

Já a vitamina A, conhecida por beneficiar a visão, pode causar “problemas neurológicos semelhantes à meningite e cefaleia intensa”, quando administrada em excesso, além de oferecer risco teratogênico (malformação do feto) para gestantes. Segundo Vannucchi, as hipervitaminoses mais graves são causadas pelas vitaminas A, D, E e C.

Tratamento para hipervitaminose

O procedimento para lidar com a intoxicação de vitaminas difere entre cada grupo de nutrientes. No caso dos hidrossolúveis (que se dissolvem em água), vitaminas B1, B2, B3, B6, B9, B12, o ácido pantotênico e a vitamina C, basta interromper a administração dos nutrientes, sem grandes problemas, pois seu excesso é excretado pelos rins e pela urina.

Já no caso dos lipossolúveis, além de suspender a ingestão das vitaminas, é preciso saber que “pode demorar semanas ou meses para retornar à normalidade” e, “enquanto isso, nada pode ser feito”. Ácido pantotênico e biotina, do grupo de vitaminas do complexo B, são nutrientes que não apresentam relatos de efeitos colaterais.

Fonte: Jornal da USP

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