Anvisa aprova por unanimidade uso emergencial das vacinas

A Diretoria Colegiada da Anvisa (Dicol) aprovou neste domingo (17/1), por unanimidade, a autorização temporária de uso emergencial da vacina CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, e da vacina Covishield, produzida pela farmacêutica Serum Institute of India, em parceria com a AstraZeneca/Universidade de Oxford/Fiocruz.

As decisões serão publicadas e comunicadas às duas instituições ainda hoje. Com relação à CoronaVac, em especial, a autorização foi condicionada ainda à assinatura de um Termo de Compromisso e sua respectiva publicação no Diário Oficial da União (D.O.U.).

Esse Termo de Compromisso determina que, até 28/2, seja realizada e apresentada à Anvisa a complementação dos estudos de imunogenicidade, conforme aprovado no desenho de estudo clínico fase III da vacina. A chamada imunogenicidade é a capacidade, por exemplo, de uma vacina incentivar o organismo a produzir anticorpos contra o agente causador da doença. Esse documento, portanto, deve complementar as informações referentes à imunidade conferida aos voluntários que receberam a vacina na terceira fase de desenvolvimento clínico. O dado é imprescindível para que se possa concluir a duração da resposta imunológica nos indivíduos vacinados.

Tanto a Fiocruz quanto o Instituto Butantan devem dar continuidade aos estudos e à geração de dados para permitir o registro sanitário na Anvisa. Da mesma forma, ambos precisam manter o monitoramento da segurança das vacinas, fundamental para garantir que os benefícios continuem a superar os riscos para as pessoas que recebem vacinas contra Covid-19. A Anvisa, como órgão regulador federal, pode revisar e ajustar as condições para o uso emergencial frente a resultados que sejam considerados relevantes, inclusive dados e informações provenientes de autoridades reguladoras internacionais.

A diretora da Anvisa Meiruze Freitas, relatora dos dois processos, ao proferir seu voto, destacou que “o acesso às vacinas e à proteção que elas podem conferir é questão de segurança nacional, beneficiando diretamente os profissionais de saúde, seus pacientes, familiares, comunidade e a saúde geral do país”.

Entenda

O procedimento de autorização de uso emergencial avalia a adequação das candidatas a vacinas contra Covid-19 para a utilização durante a atual emergência em saúde pública, de modo a minimizar, o mais rápido possível, os impactos da pandemia. É importante ressaltar que as autorizações temporárias para uso emergencial não são permissões para a introdução no mercado para fins de comercialização, distribuição e uso. Ou seja, não foi concedido ainda o registro sanitário.

Assim sendo, eventual violação da condição da autorização de uso emergencial estará sujeita às penalidades previstas, conforme legislação (Lei 6.437/77) que dispõe sobre as responsabilidades aos titulares das autorizações. Os demandantes – Instituto Butantan e Fiocruz – devem fornecer prontamente à Anvisa quaisquer outros dados, recomendações ou orientações que sejam elaborados ou que cheguem a seu conhecimento e tenham relevância para a contínua avaliação do perfil de benefício e risco das vacinas, bem como para a segurança e suas condições de uso.

Fonte: ANVISA

Novo protótipo de ventilador pulmonar de baixo custo é criado por Professor da USP São Carlos

Um novo modelo de ventilador pulmonar de baixo custo foi desenvolvido por um professor da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP. A estrutura da tecnologia é composta, basicamente, de um cilindro com um êmbolo em seu interior, o qual é acionado por um motor de alta precisão. Todas as ações do sistema são controladas por um software, que define a velocidade e pressão adequadas do fluxo de ar que deve ser bombeado ao usuário, bem como a dose ideal de oxigênio, baseada na altura e sexo do paciente. Válvulas ajudam a controlar a entrada e saída dos gases.

Além de ser totalmente programável e poder ser controlado a distância, o equipamento não precisa ser alimentado por ar comprimido, ou seja, o aparelho consegue utilizar o ar diretamente da atmosfera, por meio de filtros ou purificadores. Batizado de Respirador Artificial Integrado (RAI), o aparelho pode ser aplicado em uso contínuo, possibilitando que um mesmo paciente o utilize por diversas semanas seguidas sem a necessidade de interrupções ou trocas de ventilador.

“A ideia foi desenvolver um projeto de alta confiabilidade e qualidade voltado ao tratamento sistêmico de pacientes com covid-19. O sistema é de fácil operação e oferece uma interface intuitiva e poderosa ao usuário, que tem grande capacidade de visualização dos parâmetros do equipamento e das condições do paciente”, explica o professor José Roberto Monteiro, autor do trabalho e professor do Departamento de Engenharia Elétrica e de Computação (SEL) da EESC.

Professor José Roberto levou cerca de cinco meses para desenvolver o ventilador pulmonar – Foto: Henrique Fontes – SEL/USP

Mais um destaque do novo ventilador pulmonar, que levou cerca de cinco meses para ser desenvolvido, é que ele pode ser estimulado pelo próprio usuário. Neste caso, basta o indivíduo fazer um movimento de inspiração para que o sistema identifique a necessidade de enviar mais oxigênio.

O respirador controla a fração exata de oxigênio bombeada, podendo variar de 20% a 100%, de acordo com a demanda do paciente.

Custo acessível

“Entre as principais vantagens deste novo respirador está o seu baixo custo, pois ele foi construído com materiais fáceis de serem adquiridos e de simples fabricação, como plástico, alumínio e aço inox. Se produzido em larga escala, a estimativa é de que o produto tenha um custo de material inferior a R$ 1,5 mil, valor bem abaixo dos que são encontrados no mercado, que demandam um investimento em torno de R$ 15 mil”, explica Monteiro.

Além de ser totalmente programável e poder ser controlado a distância, o equipamento não precisa ser alimentado por ar comprimido; expectativa é que produto esteja pronto para ser comercializado em 30 a 60 dias após a aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – Foto: Henrique Fontes / SEL/USP

Um protótipo do ventilador já foi finalizado pelo docente, que agora aguarda o interesse de órgãos públicos ou da iniciativa privada para que o produto chegue ao mercado o mais rápido possível, tendo em vista que ainda há muitas incertezas sobre quando terminará a pandemia de covid-19. Uma vez realizadas todas as adaptações necessárias por um eventual fabricante, a expectativa do professor é de que o produto possa estar pronto para ser comercializado dentro de um período entre 30 e 60 dias, dependendo dos trâmites de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

“Ainda não sabemos quais serão os desdobramentos da pandemia, se teremos logo uma vacina ou se haverá novas ondas de contágio. No entanto, independentemente da utilização de nossa tecnologia durante a pandemia, estamos entregando um aparelho que será muito importante para a redução de custos de equipamentos hospitalares, podendo ser utilizado em qualquer momento e em diferentes cenários”, completa Monteiro.

O RAI foi construído por meio de técnicas de acionamentos elétricos, área de pesquisa em que o professor da EESC trabalha e que consiste, resumidamente, no controle de precisão de motores elétricos. A utilização deste ramo da ciência foi essencial para a redução dos custos do equipamento. O trabalho contou com a colaboração do ex-aluno da EESC José Antonio Ottoboni, durante a realização de seu doutorado na instituição. Atualmente ele é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), campus de São Carlos.

Fonte: Jornal da USP

Cientistas da USP identificam mais um mecanismo envolvido na forma mais grave da COVID


A covid-19 é uma doença inflamatória causada pelo novo coronavírus, SARS-CoV-2, e a evolução varia bastante entre os pacientes. Algumas pessoas infectadas não apresentam sintomas, enquanto outras evoluem para uma pneumonia grave e até para a síndrome respiratória aguda ou morte.

Só no Brasil já foram quase 170 mil mortes por complicações da covid-19. Os processos que promovem o agravamento dos casos e levam alguns pacientes a óbito ainda são desconhecidos. 

Também são desconhecidos os mecanismos envolvidos na sua natureza inflamatória e resposta imune contra esses vírus, ou seja, os mecanismos de defesa que o organismo utiliza para combater essa infecção. 

Um importante passo para esse entendimento foi dado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP. Estudo liderado pelo professor Dario Zamboni, do Departamento de Biologia Celular e Molecular e Bioagentes Patogênicos da FMRP e do Centro de Pesquisas em Doenças Inflamatórias (Crid), mostra que um conjunto de moléculas presentes dentro das células e envolvidas na inflamação, o chamado inflamassoma, pode ajudar a prever se o paciente evoluirá para casos mais graves ou mais leves da covid-19.

O inflamassoma de NLRP3 é composto de um conjunto de moléculas que, quando ativadas, se aglomeram no interior das células de defesa formando estruturas chamadas “puncta”, que indicam que os inflamassomas estão ativos.

 “Se os inflamassomas estão ativos, eles vão levar a um processo inflamatório que pode promover o controle de algumas infecções. Mas se o processo inflamatório for muito forte, descontrolado, ele pode levar a uma resposta exacerbada, causar danos aos tecidos e piorar o quadro clínico em algumas doenças. Esse parece ser o caso de pacientes com quadros moderados e graves de covid-19, aqueles que procuram atendimento hospitalar”, revela o professor Zamboni.

Dario Simões Zamboni – Foto: Divulgação/FMRP USP

Essa foi a primeira vez que pesquisadores associaram o inflamassoma de NLRP3 com a evolução da covid-19 para desfechos menos favoráveis aos pacientes.

Utilizando amostras de 124 doentes com casos graves e moderados, o estudo mostrou que o grau de ativação dos inflamassomas está associado ao desfecho clínico dos pacientes.

Segundo o professor Zamboni, esses achados sugerem que, nos casos graves, a ativação muito forte do inflamassoma está sendo prejudicial aos pacientes.

“Essa descoberta é importante pois abre caminhos para novas possibilidades de tratamentos para a covid-19, uma vez que já existem drogas eficazes que inibem a ativação dos inflamassomas.”

O estudo, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp),  acaba de ser publicado no Journal of Experimental Medicine, um dos mais importantes jornais médicos científicos do mundo, e conta com outros 43 autores da USP em Ribeirão Preto e do Hospital das Clínicas da FMRP.

Fonte: Jornal da USP

Desenvolvido pela USP, teste de COVID-19 pela saliva já está disponível

O Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL) da Universidade de São Paulo (USP) disponibiliza a partir desta terça-feira (01/12) um teste capaz de diagnosticar a COVID-19 pela saliva.

O exame poderá ser feito inicialmente por moradores da capital paulista ao custo de R$ 90 – para quem for à instituição para a coleta da amostra de saliva – ou de R$ 150 – para quem optar por fazer a autocoleta e enviar a amostra para análise por um serviço de retirada e entrega disponibilizado pelo centro.

Para solicitar o teste é preciso fazer um cadastro no link disponível no site do CEGH-CEL, um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP no Instituto de Biociências (IB-USP).

“Inicialmente realizaremos no máximo 90 testes por dia [por ordem de cadastro], cujos resultados serão disponibilizados em até 24 horas”, diz à Agência FAPESP Maria Rita Passos-Bueno, pesquisadora do CEGH-CEL e coordenadora do projeto.

O método é uma alternativa ao exame de RT-PCR, considerado o padrão-ouro para detectar o novo coronavírus durante a fase aguda da infecção, e similar aos já desenvolvidos no Brasil e em outros países com o objetivo de aumentar a disponibilidade e a rapidez e diminuir os custos para realização de testes moleculares por meio de simplificações dos processos. Segundo Passos-Bueno, o teste está de acordo com as diretrizes determinadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) – agência regulamentadora de alimentos e fármacos – concedeu até o fim de agosto autorização para uso emergencial de cinco testes para diagnóstico de COVID-19 baseados em saliva. Uma das autorizações foi para um teste chamado SalivaDirect, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Yale.

No Brasil, o laboratório de genômica Mendelics criou e já comercializa um teste similar, e pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) estão desenvolvendo um kit na mesma linha.

“O teste que desenvolvemos tem algumas pequenas diferenças em comparação com os que têm sido comercializados no Brasil e nos Estados Unidos no que se refere aos reagentes utilizados”, afirma Passos-Bueno.

Teste-piloto

O teste é baseado em uma técnica molecular amplamente utilizada para o diagnóstico de doenças infecciosas, como dengue, chikungunya, hepatite A e zika, chamada RT-LAMP (sigla em inglês de transcrição reversa seguida por amplificação isotérmica mediada por alça).

A técnica molecular tem algumas semelhanças com o método RT-PCR, que utiliza como amostras para realização dos testes secreções do fundo da garganta e do nariz. Em ambas as técnicas são induzidas reações para a realização de uma fase de transcrição reversa (RT), na qual o RNA do vírus é transformado em DNA, e uma fase de amplificação, em que regiões específicas do vírus são replicadas milhões de vezes para que o patógeno possa ser identificado.

Porém, o teste RT-LAMP desenvolvido no CEGH-CEL não requer a extração do RNA do vírus para ser detectado, o que é feito no RT-PCR por meio de reagentes importados, que são caros e frequentemente escassos no mercado, dependendo da demanda.

A eliminação da etapa de extração do RNA pelo teste de RT-LAMP é possível pelo rompimento do capsídeo do vírus por aquecimento e adição de uma solução desenvolvida pelos pesquisadores do CEGH-CEL, que estabiliza o vírus para os processos de conversão do RNA viral em DNA e para a amplificação do material genético do vírus para facilitar a detecção dele na saliva.

Todo esse processo ocorre em temperatura constante, por um método chamado amplificação isotérmica mediada por alça (LAMP, na sigla em inglês) (leia mais em agencia.fapesp.br/33998).

“Conseguimos desenvolver as enzimas necessárias para a realização desse processo, que são os principais insumos do teste, por meio de um trabalho desenvolvido pelo professor Shaker Chuck Farah, do Instituto de Química (IQ) da USP”, diz Passos-Bueno.

O teste foi realizado duas vezes por semana em 25 funcionários do IQ-USP e 30 pessoas ligadas ao IB-USP. O trabalho foi apoiado pela FAPESP e pela empresa JBS.

“Fizemos mais de mil testes com esse grupo de pessoas”, afirma Passos-Bueno.

Os interessados em realizar o teste devem se cadastrar pelo site www.genomacovid19.ib.usp.br. No formulário será possível escolher entre fazer a coleta presencial no CEGH-CEL (situado na rua do Matão, travessa 13, no. 06, Cidade Universitária, Butantã) ou a autocoleta. As informações sobre a data e o horário disponíveis serão enviadas para o e-mail cadastrado.

Fonte: Agência FAPESP
 

Coronavírus pode afetar o sistema reprodutivo masculino

Desde o início da pandemia, estudos têm indicado que homens são afetados mais gravemente pelo novo coronavírus do que mulheres. Para explicar mais sobre o assunto e trazer novas descobertas sobre o impacto da infecção do sars-cov-2 no sistema reprodutivo e sexual masculino, o professor Jorge Hallak, da Faculdade de Medicina (FMUSP) e do Grupo de Estudo em Saúde Masculina do Instituto de Estudos Avançados (IEA), conversou com o Jornal da USP no Ar.

Outras doenças virais, como a caxumba e o zika vírus, causam impactos significativos na saúde reprodutiva e sexual, principalmente de homens. E, segundo evidências científicas recentes, o novo coronavírus também entrará nessa lista. Na pesquisa realizada na FMUSP, foram avaliados pacientes na fase aguda da doença, com objetivo de tentar identificar o vírus no sêmen ejaculado. Hallak conta que esse processo não é tão simples, uma vez que os doentes sofrem com cansaço, tornando difícil garantir a amostra necessária via masturbação.

Apesar disso, a perspectiva é positiva, pois os resultados da pesquisa brasileira se assemelham com estudos internacionais realizados em países como a China. O professor conta que uma das evidências obtidas é a de que o sars-cov-2 tem uma estrutura que afeta o testículo e o epidídimo (ducto que coleta e armazena os espermatozoides): “Nesse contexto, identificamos por ultrassom que uma porcentagem significativa de contaminados pelo sars-cov-2 assintomáticos tiveram uma inflamação importante no epidídimo, diferente das infecções bacterianas. Também vimos alterações das funções dos espermatozoides de maneira moderada, inclusive na qualidade deles, mas ainda não existe evidência de que o vírus possa deixar o indivíduo infértil”.

Por meio de análises e testes, os pesquisadores também conseguiram verificar que o vírus pode afetar ainda mais as células responsáveis por produzir hormônios (como a testosterona) nos testículos, causando uma disfunção na quantidade deles no sangue. Já se sabe que esse é um efeito transitório e recuperável, mas ainda não foi descoberto o período necessário para que isso seja normalizado.

O que se sabe até o momento é que “o vírus tem uma predileção pelo sistema reprodutivo masculino”, de acordo com Hallak. Uma possível explicação é a quantidade de receptores do órgão: depois do pulmão, que é o mais afetado pela síndrome, pois a infecção ocorre por via aérea, os órgãos com mais receptores são os testículos e o rim vem em terceiro lugar. Por isso, “as evidências mostram que a proporção de infecção é a mesma para homens e mulheres, só que a gravidade é 50% maior em indivíduos do sexo masculino. Isso se deve a componentes biológicos e não necessariamente socioambientais”, explica o professor.

Fonte: Jornal da USP

Dispositivo portátil criado por pesquisadores brasileiros detecta o coronavírus em tempo real

O teste rápido é uma ferramenta fundamental no combate à pandemia provocada pelo novo coronavírus no Brasil. Para contribuir com este monitoramento, pesquisadores desenvolveram um dispositivo portátil capaz de detectar o SARS-CoV-2, com análises em tempo real: o GRAPH Covid-19. Com rapidez, precisão de resultados e portabilidade, o novo produto pode contribuir de modo significativo na batalha contra este vírus e também no controle de outros tipos de doenças. O dispositivo foi desenvolvido na Biosintesis, empresa de pesquisa, desenvolvimento e inovação, e residente na Incubadora USP/IPEN-Cietec.

A solução

O GRAPH Covid-19 é uma plataforma de Diagnostic On a Chip (DoC) baseada na tecnologia inovadora de biossensores avançados com nanocompósitos de óxido de grafeno.

Uma das vantagens é que a plataforma de diagnóstico GRAPH usa baixo volume de amostra biológica – como, por exemplo, uma gota de sangue -, sendo capaz de detectar e monitorar diversas doenças, tendo como prioridade testar a infecção por SARS-CoV-2. Além disso, o dispositivo terá produção nacional, dispensando a necessidade de importação de insumos e possibilitando alta escala de produção para atender rapidamente à demanda diagnóstica em todo o País.

Atualmente, os testes rápidos importados são realizados por imunocromatografia, método de baixa acuracidade (exatidão) e que traz grande preocupação com resultados falso-negativos. Por isso, a chegada de biossensores como plataforma diagnóstica no setor clínico é uma evolução tecnológica, com grandes vantagens frente às soluções disponíveis.

De acordo com Fabiana Medeiros, doutora em Biotecnologia pelo Programa de Tecnologia Nuclear do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) da USP e sócia-fundadora da Biosintesis, os biossensores avançados associados a nanocompósitos de óxido de grafeno podem ser usados para diagnóstico em tempo real e monitoramento de diversas doenças.

“Esta tecnologia traz benefícios significativos em relação a metodologias analíticas convencionais, tais como rapidez, alta sensibilidade e especificidade. Sua portabilidade permite diagnosticar o SARS-CoV-2 em qualquer local: postos do SUS, unidades de saúde, drive through, regiões remotas e até no controle de portos e aeroportos”

“Os biossensores, quando aplicados em saúde, podem também detectar os diferentes tipos de biomarcadores prognósticos e diagnósticos associados ao câncer, diabete, Alzheimer, infecções virais (zika, dengue, chikungunya, etc.) e bacterianas, assim como vários tipos de técnicas de sensoriamento eletroquímico utilizadas para a detecção precoce de potenciais biomarcadores para essas doenças”, explica Fabiana.

Diferenciais do equipamento 

O GRAPH Covid-19 apresenta alguns diferenciais. É o método mais rápido disponível no mercado, com resultados em menos de um minuto; não necessita de laboratórios de biossegurança e também não precisa de mão de obra especializada para sua análise. Além disso, o equipamento é totalmente portátil e não necessita de um ponto de energia, internet ou estrutural laboratorial.

É um equipamento que trará muitos benefícios ao monitoramento da pandemia no Brasil, além de apresentar potencial de exportação de tecnologia para outros países. A expectativa é que haja uma redução de custo em torno de 25% em comparação aos testes atuais.

De acordo com Fabiana, estão previstas negociações futuras com as esferas governamentais para oferecer o equipamento a hospitais e postos de saúde. “Somos uma empresa participante do movimento Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), e ficamos em 7º lugar no Concurso Emergencial Covid-19 nº 002/2020 da ABDI/CNI, para a redução dos impactos da pandemia de covid-19 nas áreas de cidades, bairros e conglomerados urbanos brasileiros com população vulnerável. Por esta iniciativa, e especialmente pela parceria com o IPEN, negociações com as esferas municipal, estadual e federal são um dos principais focos do projeto”, destaca.

O funcionamento básico do equipamento em laboratório já foi comprovado. No momento, os responsáveis pelo GRAPH Covid-19 estão trabalhando na validação de diagnóstico do SARS-CoV-2. “Esperamos ter resultados mais robustos no primeiro trimestre de 2021 e, naturalmente, o SUS [Sistema Único de Saúde] será o principal foco de atuação desta tecnologia.”

Segundo Fabiana, é esperado que os biossensores custem em torno de R$ 155,00 em escala de produção. Essa produção em escala está prevista para acontecer a partir do registro da plataforma GRAPH na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Já sobre a previsão de quando o equipamento chegará ao mercado, a expectativa é que os testes sejam iniciados com os primeiros protótipos em laboratórios e unidades de saúde em seis meses.

Parcerias
Sob coordenação da Biosintesis, empresa residente na Incubadora USP/IPEN-Cietec, o projeto tem parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Conta com a participação de uma equipe de pesquisadores multidisciplinares, composta de quatro diferentes Centros de Pesquisas:  Biotecnologia (CEBIO), Ciência e Tecnologia de Materiais (CCTM), Combustível Nuclear (CECON) e Tecnologia das Radiações (CETER).“Com a pandemia, as empresas e o governo estão ampliando os investimentos em projetos de inovação e automação de empresas, principalmente para produção de equipamentos hospitalares que podem ser usados no combate ao novo coronavírus. O momento é oportuno para startups voltadas à saúde, como a Biosintesis, que está trazendo sua importante contribuição, por meio da criação deste dispositivo inovador”, afirma Sergio Risola, diretor-executivo do Cietec.Com foco no desenvolvimento de soluções para apoio ao Sistema Único de Saúde (SUS), o IPEN/CNEN tem incentivado e apoiado vários projetos de pesquisa na prevenção e no combate à covid-19, os quais têm caráter inovador e propõem soluções criativas para o enfrentamento aos desafios desse momento de crise no País. “Muitas dessas pesquisas têm se revelado um sucesso, este é o caso da Biosintesis, que conta com a colaboração de pesquisadores de vários Centros de Pesquisa do IPEN, os quais, com suas expertises, têm dado grande contribuição para o sucesso do projeto. Esses recursos humanos altamente qualificados são motivo de muito orgulho para a nossa instituição”, avalia Isolda Costa, diretora de Pesquisa, Ensino e Desenvolvimento do IPEN.

Sobre o Biosintesis 
Em operação desde 2008, o laboratório Biosintesis atua em duas frentes centrais de trabalho: pesquisa, desenvolvimento, inovação: desenvolvimento de novos materiais, engenharia de tecidos e testes/protocolos in vitro; e prestação de serviços para P&D e registro de produtos, atendendo a cinco áreas principais: dispositivos médicos e odontológicos, farmacêutica, puericultura e cosméticos.

Sobre o IPEN
Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) é uma autarquia vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) do governo do Estado de São Paulo e gerida técnica e administrativamente pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) do governo federal.Com destacada atuação na área nuclear, proporcionando avanços significativos no domínio de tecnologias, na produção de materiais e na prestação de serviços de valor econômico e estratégico para o País, o IPEN/CNEN também é excelência na formação de recursos humanos, no âmbito de seu Programa de Pós-Graduação em Tecnologia Nuclear associado à USP.

Sobre o Cietec
O Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), fundado em abril de 1998, tem como missão incentivar o empreendedorismo e a inovação tecnológica por meio da criação, fortalecimento e a consolidação de empresas de base tecnológica. O Cietec apoia a transformação de conhecimento em produtos e serviços para o mercado, a inserção no ecossistema de inovação, a capacitação técnica e de comercialização, contribuindo para o aumento da competitividade no Brasil.O Cietec é a entidade gestora da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica USP/IPEN, onde são conduzidos processos de incubação de empresas inovadoras, em diferentes níveis de maturidade. Nesses processos, são oferecidos serviços de apoio para demandas nas áreas de gestão tecnológica, empresarial e mercadológica, aproximação com o investimento-anjo, capital semente e venture capital, recursos de fomento público, além de infraestrutura física para a instalação e operação dessas empresas.

Fonte: Jornal da USP

Cartilha traz orientações sobre alimentação e compulsão alimentar durante a pandemia

Nesses vários meses de pandemia, a população começou a expor suas preocupações com a alimentação, pois muitas famílias que antes faziam as refeições fora de casa passaram a cozinhar em casa. Para ajudar nesse quesito, a aluna de pós-graduação Shauana Rodrigues Silva Soares, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, desenvolveu a cartilha Alimentação e comportamento alimentar diante da pandemia de covid-19. O intuito do material é apresentar recomendações nutricionais que incentivem a população a adotar uma alimentação mais adequada e saudável.

A cartilha foi elaborada como parte do estudo “O impacto do isolamento social causado pela covid-19 no comportamento alimentar e consumo de álcool em pessoas com e sem transtornos alimentares”, que é realizado pelo Grupo de Estudos do Comportamento Alimentar e Transtornos Alimentares (GeComTA) da EERP, com orientação da professora Rosane Pilot Pessa. De acordo com a professora, dados preliminares do estudo apontam que, devido à pandemia, as pessoas apresentaram significativas alterações na alimentação.

A professora Rosane afirma que não foram feitas análises estatísticas muito profundas, mas os dados obtidos mostram que as pessoas têm consumido mais alimentos processados fornecidos por delivery, ingerido menos água e que os distúrbios de ansiedade e compulsão estão provocando uma maior ingestão de comida.

Com isso, o estudo se mostrou importante por significar e responder sobre as mudanças que ocorrem no comportamento alimentar da população diante do isolamento social. De acordo com Shauana, a cartilha reforça a importância de compreender o momento presente e a necessidade de informações confiáveis baseadas em evidências científicas como forma de combate às doenças e notícias falsas que circulam nas mídias. “Por isso optamos por criar este material. A ideia é disponibilizar materiais educativos ao longo do desenvolvimento do estudo, a partir das informações obtidas pela coleta de dados.”

Segundo a estudante, o material foi montado com base na literatura científica sobre recomendações para uma alimentação saudável e comportamento alimentar consciente, além dos cuidados para a higienização e o armazenamento dos alimentos. Com o conteúdo definido, buscaram adequar a linguagem para um melhor entendimento do público, com imagens simples e atraentes.

A pesquisadora conta que foram muitos os desafios, como adaptar a linguagem para um público mais amplo, selecionar imagens que ilustrassem o conteúdo, construir uma identidade única para o material ao falar, por exemplo, das sensações de fome e saciedade, apresentar atividades práticas para definir a quantidade de comida a ser consumida de forma apropriada, e, ainda, encontrar referências de órgãos governamentais e instituições de renome. 

Ainda assim, tanto Rosane quanto Shauana se orgulham do trabalho feito. “O material é o primeiro fruto da construção do meu mestrado. Me sinto grata por estar desenvolvendo um estudo de tamanha importância na USP, ao lado de pessoas que são referência para a continuidade de pesquisas sobre o comportamento alimentar e os transtornos alimentares. É preciso que nós, Universidade e pesquisadores, exerçamos nosso compromisso em contribuir para a melhora da qualidade de vida da população com a oferta de informações acessíveis e de qualidade”, diz Shauana. 

A professora Rosane destaca que, em meio a um período tão singular, não há espaço para a falta de cuidado e a EERP se mostra um grande exemplo por produzir tantos materiais educativos, treinamentos, palestras e pesquisas sobre a pandemia.

Clique aqui para baixar a cartilha.

Fonte: Jornal da USP

Vídeos antivacina: desinformação gera lucro e coloca saúde pública em risco

Autores e YouTube se beneficiam financeiramente do material, em meio à guerra política e informacional que atenta contra a saúde pública.

Você abre o grupo da família no WhatsApp e se depara com uma “informação sigilosa”: o novo coronavírus foi criado em laboratório para eliminar 90% da população mundial. E quem não morrer pela doença corre o risco de morrer ao ser vacinado contra a covid. Ou ter um chip implantado no cérebro. Ou ter o DNA alterado para manipulação genética. Essas teorias conspiratórias encontram eco, principalmente, em aplicativos de mensagem, como WhatsApp e Telegram, além de redes sociais como Facebook e Instagram. Na plataforma de vídeos YouTube não é diferente.

E o pior: há quem lucre com essa desinformação. Uma análise feita pela União Pró-Vacina (UPVacina) – iniciativa que reúne instituições da USP, em Ribeirão Preto, e outros setores da sociedade – mostra que as mudanças recentes nas diretrizes de remoção de conteúdo falso no YouTube não foram suficientes para barrar a disseminação de desinformação sobre vacinas contra a covid-19. O levantamento foi feito com base em links e canais compartilhados nos principais grupos antivacina do Brasil e comprovou a falta de eficiência da plataforma em cumprir essa nova política.

Além disso, a monetização dos vídeos está permitindo que tanto os autores quanto o próprio YouTube se beneficiem financeiramente do material, em meio a uma guerra política e informacional que atenta diretamente contra a saúde pública e cobra seu preço em vidas.

O estudo encontrou e mapeou 65 vídeos que somam cerca de 3,8 milhões de visualizações, publicados entre 2 de março e 21 de outubro por 37 canais diferentes, com aproximadamente 3,1 milhões de inscritos.

Entre os principais temas, mentiras tradicionalmente utilizadas pelos grupos antivacina, como presença de células de fetos abortados na composição dos imunizantes e uso dessas substâncias para inserir microchips ou alterar o DNA humano com o propósito de controlar a população. Outras já se inserem no contexto da pandemia, como uma suposta negociação da vacina contra covid-19 antes mesmo do conhecimento da existência do novo coronavírus. No total, são quase 30 horas de vídeos.

Alerta contra a desinformação

Desde 20 de maio, o YouTube afirma ter uma política para informações médicas incorretas relacionadas à covid-19. Basicamente, a plataforma diz não permitir o envio de conteúdo que contrarie orientações da Organização Mundial da Saúde ou autoridades de saúde locais sobre tratamento, prevenção, diagnóstico e transmissão da doença.

No início de outubro, houve uma atualização importante proibindo a desinformação sobre vacinas contra covid-19. Porém, menos de 8% dos vídeos analisados no estudo atual continham qualquer tipo de alerta da plataforma. Outro fator preocupante é que quase metade deles (31) está monetizado.

A UPVacina destaca que a questão se torna extremamente crítica porque, além de possibilitar a disseminação em larga escala desse tipo de conteúdo, o YouTube também viabiliza financeiramente esse sistema, ao lucrar com a desinformação e repassar parte do valor aos produtores. A análise completa com gráficos e links está disponível no site do Instituto de Estudos Avançados da USP – Polo Ribeirão Preto (IEA-RP).

Facebook

Uma análise anterior do grupo, divulgada em março, mostrou que, no Facebook, grupos tradicionalmente conhecidos por disseminarem informações falsas sobre vacinas, de modo geral, haviam mudado o alvo e estavam se concentrando na covid. A análise foi feita com dois dos maiores grupos públicos antivacina da rede social no Brasil.

Os métodos da desinformação eram o de distorcer conteúdo científico e jornalístico, espalhar teorias da conspiração e até oferecer falsas curas usando produtos conhecidamente tóxicos para a saúde humana. Entre as publicações, havia insinuações de que o vírus seria uma ferramenta para instituir uma nova ordem mundial ou mesmo uma arma produzida pela China. Outras afirmavam que a vacina da gripe seria a responsável pela disseminação da covid-19 e que a doença seria facilmente curada por meio da frequência do cobre ou de zappers, supostos antibióticos eletrônicos.

A União Pró-Vacina analisou 213 postagens feitas entre 15 e 21 de março nos grupos O Lado Obscuro das Vacinas Vacinas: O Maior Crime da História, que atuam há cinco e dois anos, respectivamente.

O conteúdo das postagens era preocupante: 78,4% apresentavam sérios problemas, como a disseminação de teorias da conspiração, utilização de informações falsas e de afirmações sem evidências, a distorção de informações confiáveis, a sugestão de uso e até a comercialização de produtos e tratamentos que não possuem comprovação científica ou aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Segundo dados da União Pró-Vacina divulgados em março deste ano, Facebook e Twitter iriam remover conteúdos falsos sobre o coronavírus e direcionar os usuários que buscam informações sobre a pandemia para o Ministério da Saúde. No Instagram, a ação era semelhante, mas o redirecionamento era feito para a página da Organização Mundial da Saúde. 

Já o WhatsApp, que é de propriedade do Facebook, não consegue coibir a disseminação das notícias falsas por conta da criptografia das mensagens. Portanto, o próprio usuário precisa estar atento às informações que recebe para não colaborar com essa propagação.

Impacto negativo na imunização

A ação de grupos antivacina é um dos fatores que estão impactando negativamente campanhas de imunização em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, em 2019, o país não conseguiu bater a meta de vacinar 95% do público-alvo em nenhuma das 15 vacinas do calendário anual. Foi a primeira vez em 25 anos que isso aconteceu. 

Por conta disso, doenças que já estavam praticamente erradicadas por aqui, como o sarampo, estão voltando com força e fazendo um grande número de vítimas fatais. O País alcançou o 5° lugar no ranking mundial de casos da doença em 2019.

Sobre a União Pró-Vacina

A União Pró-Vacina é uma iniciativa organizada pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) Polo Ribeirão Preto da USP em parceria com o Centro de Terapia Celular (CTC), o Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), os projetos de divulgação científica Ilha do Conhecimento e Vidya Academics, e o Gaming Club da FEA-RP.

O objetivo é unir instituições acadêmicas e de pesquisa, poder público, institutos e órgãos da sociedade civil para combater a desinformação sobre vacinas, planejando e coordenando atividades conjuntas durante todo o ano de 2020, explorando as potencialidades de cada instituição participante.

Entre as ações que serão realizadas estão: colaboração para elaboração e melhoria de políticas públicas; produção de material informativo; intervenções em escolas, espaços públicos e centros de saúde; eventos expositivos; combate às informações falsas e desenvolvimento de games.

(Com informações do Instituto de Estudos Avançados da USP – Polo Ribeirão Preto)

Fonte: Jornal da USP

Novo coronavírus afeta o cérebro e células nervosas

Estudo brasileiro divulgado dia 13/10 na plataforma medRxiv comprova que o vírus SARS-CoV-2 é capaz de infectar células do tecido cerebral, tendo como principal alvo os astrócitos. Os resultados revelam ainda que mesmo os indivíduos que tiveram a forma leve da COVID-19 podem apresentar alterações significativas na estrutura do córtex – região do cérebro mais rica em neurônios e responsável por funções complexas como memória, atenção, consciência e linguagem.

A investigação foi conduzida por diversos grupos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de São Paulo (USP) – todos financiados pela FAPESP. Também colaboraram pesquisadores do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Dois trabalhos anteriores haviam detectado a presença do novo coronavírus no cérebro, mas não se sabia ao certo se ele estava no sangue, nas células endoteliais [que recobrem os vasos sanguíneos] ou dentro das células nervosas. Nós mostramos pela primeira vez que ele de fato infecta e se replica nos astrócitos e que isso pode diminuir a viabilidade dos neurônios”, conta à Agência FAPESP Daniel Martins-de-Souza, professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, pesquisador do IDOR e um dos coordenadores da investigação.

Os astrócitos são as células mais abundantes do sistema nervoso central e desempenham funções variadas: oferecem sustentação e nutrientes para os neurônios; regulam a concentração de neurotransmissores e de outras substâncias com potencial de interferir no funcionamento neuronal, como o potássio; integram a barreira hematoencefálica, ajudando a proteger o cérebro contra patógenos e toxinas; e ajudam a manter a homeostase cerebral.

A infecção desse tipo celular foi confirmada por meio de experimentos feitos com tecido cerebral de 26 pacientes que morreram de COVID-19. As amostras foram coletadas durante procedimentos de autópsia minimamente invasiva conduzidos pelo patologista Alexandre Fabro, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). As análises foram coordenadas por Thiago Cunha, professor da FMRP-USP e integrante do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID).

Os pesquisadores adotaram uma técnica conhecida como imuno-histoquímica, que consiste em usar anticorpos para marcar antígenos virais ou componentes do tecido analisado, como explica Martins-de-Souza. “Por exemplo, podemos colocar na amostra um anticorpo que ao se ligar no astrócito faz a célula adquirir a coloração vermelha; outro que ao se ligar na proteína de espícula do SARS-CoV-2 marca a molécula de verde; e, por último, um anticorpo para marcar de roxo o RNA viral de fita dupla, que só aparece durante o processo de replicação do microrganismo. Quando todas as imagens feitas durante o experimento foram colocadas em sobreposição, notamos que as três cores aparecem simultaneamente apenas dentro dos astrócitos.”

De acordo com Cunha, a presença do vírus foi confirmada nas 26 amostras estudadas. Em cinco delas também foram encontradas alterações que sugeriam um possível prejuízo ao sistema nervoso central.

“Observamos nesses cinco casos sinais de necrose e de inflamação, como edema [inchaço causado por acúmulo de líquido], lesões neuronais e infiltrados de células inflamatórias. Mas só tivemos acesso a uma pequena parte do cérebro dos pacientes, então, é possível que sinais semelhantes também estivessem presentes nos outros 21 casos estudados, mas em regiões diferentes do tecido”, diz Cunha.

Sintomas persistentes:

Em outro braço da pesquisa, conduzido na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, exames de ressonância magnética foram feitos em 81 voluntários que contraíram a forma leve da COVID-19 e se recuperaram. Em média, as avaliações presenciais ocorreram 60 dias após a data do teste diagnóstico e um terço dos participantes ainda apresentava sintomas neurológicos ou neuropsiquiátricos. As principais queixas foram dor de cabeça (40%), fadiga (40%), alteração de memória (30%), ansiedade (28%), perda de olfato (28%), depressão (20%), sonolência diurna (25%), perda de paladar (16%) e de libido (14%).

“Divulgamos um link para que interessados em participar da pesquisa pudessem se inscrever e, para nossa surpresa, em poucos dias já tínhamos mais de 200 voluntários, muitos deles polissintomáticos e com queixas bem variadas. Além do exame de neuroimagem, eles estão sendo avaliados por meio de exame neurológico e testes padronizados para mensurar o desempenho em funções cognitivas, como memória, atenção e flexibilidade de raciocínio. No artigo apresentamos os primeiros resultados”, conta a professora Clarissa Yasuda, integrante do Instituto de Pesquisa sobre Neurociências e Neurotecnologia (BRAINN).

Foram incluídas na pesquisa somente pessoas que tiveram o diagnóstico de COVID-19 confirmado por RT-PCR e que não precisaram ser hospitalizadas. As avaliações foram feitas após o término da fase aguda e os resultados foram comparados com dados de 145 indivíduos saudáveis e não infectados.

Pela análise dos exames de ressonância magnética foi possível perceber que algumas regiões do córtex dos voluntários tinham espessura menor do que a média observada nos controles, enquanto outras apresentavam aumento de tamanho – o que, segundo os autores, poderia indicar algum grau de edema.

“Observamos atrofia em áreas relacionadas, por exemplo, com a ansiedade – um dos sintomas mais frequentes no grupo estudado. Considerando que a prevalência média de transtornos de ansiedade na população brasileira é de 9%, os 28% que encontramos é um número elevado e alarmante. Não esperávamos esses resultados em pacientes que tiveram doença leve”, afirma Yasuda.

Nos testes neuropsicológicos – feitos para avaliar as funções cognitivas – os voluntários do estudo também se saíram pior do que a média dos indivíduos brasileiros em algumas tarefas. Os resultados foram ajustados de acordo com a idade, o sexo e a escolaridade de cada participante. Também foi considerado o grau de fadiga relatado pelo participante aos pesquisadores.

“A pergunta que fica agora é: serão esses sintomas passageiros ou permanentes? Para descobrir pretendemos continuar acompanhando esses voluntários por algum tempo”, conta a pesquisadora.

Metabolismo energético afetado:

No Laboratório de Neuroproteômica do IB-Unicamp, coordenado por Martins-de-Souza, foram realizados diversos experimentos com tecido cerebral de pessoas que morreram de COVID-19 e com culturas de astrócitos in vitro para descobrir, do ponto de vista bioquímico, como a infecção pelo SARS-CoV-2 afeta as células do sistema nervoso.

As amostras de necrópsia foram obtidas por meio de colaboração com o grupo do professor da Faculdade de Medicina da USP Paulo Saldiva. Todo o conjunto de proteínas (proteoma) presente no tecido foi mapeado por espectrometria de massas – técnica que permite discriminar substâncias em amostras biológicas de acordo com a massa molecular.

“Ao comparar com resultados de indivíduos não infectados, percebemos que diversas proteínas que estavam com a expressão alterada são abundantes em astrócitos, o que valida os achados obtidos por imuno-histoquímica”, diz Martins-de-Souza. “Nessas células, observamos alterações em diversas vias bioquímicas, principalmente naquelas relacionadas ao metabolismo energético”, conta o pesquisador.

O passo seguinte foi repetir a análise proteômica em uma cultura de astrócitos infectada em laboratório. As células foram obtidas a partir de células-tronco pluripotentes induzidas (IPS, na sigla em inglês), método que consiste em reprogramar células adultas (provenientes da pele ou de outro tecido de fácil acesso) para fazê-las assumir estágio de pluripotência semelhante ao de células-tronco embrionárias. Esta primeira parte foi realizada no laboratório do professor da UFRJ Stevens Rehen, no IDOR. Em seguida, o time de Martins-de-Souza induziu, por meio de estímulos químicos, as células IPS a se diferenciarem em células-tronco neurais e depois em astrócitos.

“Os resultados foram parecidos com os da análise feita no tecido obtido por necrópsia, ou seja, indicaram disfunção no metabolismo energético. Fizemos então uma análise metabolômica [do conjunto de metabólitos produzidos pelos astrócitos em cultura], que indicou alteração no metabolismo de glicose. Por algum motivo, o astrócito infectado passa a consumir mais glicose do que o normal e, apesar disso, os níveis de piruvato e de lactato – os dois principais substratos energéticos – estão bastante diminuídos na célula”, conta.

Como explica o pesquisador, lactato é um dos subprodutos do metabolismo da glicose e o astrócito exporta esse metabólito para o neurônio, que o utiliza como fonte de energia. As análises in vitro mostraram que a quantidade de lactato no meio de cultivo das células estava normal, embora estivesse reduzida em seu interior. “Aparentemente o astrócito se esforça para manter o fornecimento do substrato energético para o neurônio em detrimento de seu próprio funcionamento”, comenta Martins-de-Souza.

Como resultado desse processo, as mitocôndrias dos astrócitos – organelas responsáveis pela produção de energia – passaram a funcionar de forma alterada, o que pode influenciar os níveis cerebrais de neurotransmissores como o glutamato (que excita os neurônios e está relacionado com a memória e o aprendizado) e o ácido gama-aminobutírico (GABA, capaz de inibir o disparo neuronal excessivo e promover sensação de calma e relaxamento).

“Em outro experimento, tentamos cultivar neurônios nesse meio em que antes estavam sendo cultivados os astrócitos infectados e observamos que as células morrem mais do que o esperado. Ou seja, esse meio de cultivo ‘condicionado pelos astrócitos infectados’ diminuiu a viabilidade dos neurônios”, conta Martins-de-Souza.

Segundo o pesquisador, os achados descritos no artigo – ainda em processo de revisão por pares – vão ao encontro de diversos trabalhos já publicados, que apontaram possíveis manifestações neurológicas e neuropsiquiátricas da COVID-19, mas dá um passo além.

“Havia ainda uma grande dúvida: a disfunção cerebral seria decorrente da inflamação sistêmica ou o vírus estaria prejudicando diretamente o funcionamento das células nervosas ao infectá-las? Nossos resultados indicam que o SARS-CoV-2 pode de fato entrar nas células cerebrais e afetar seu funcionamento”, diz.

Na avaliação de Cunha, a próxima pergunta a ser respondida é como o vírus chega ao sistema nervoso central e qual é o mecanismo usado para entrar nos astrócitos – o que pode dar pistas para possíveis intervenções capazes de barrar a infecção.

“Também pretendemos fazer experimentos com camundongos geneticamente modificados para expressar a ACE2 humana [principal proteína usada pelo vírus para infectar as células]. A ideia é confirmar nesses animais se há uma relação de causa e efeito, ou seja, se a infecção por si só é capaz de induzir as alterações que observamos nos cérebros dos pacientes”, adianta Cunha.

Marcelo Mori, professor do IB-Unicamp e integrante do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (OCRC), destaca que a pesquisa só foi possível graças à colaboração de pesquisadores com formações e expertises variadas e complementares. “Este é um exemplo de que para fazer ciência de qualidade e competitiva é preciso aliar esforços interdisciplinares. É difícil competir internacionalmente se ficarmos apenas dentro do nosso laboratório, limitados às técnicas que conhecemos e aos equipamentos que temos acesso”, afirma.

Ao todo, o artigo tem 74 autores. Os experimentos foram conduzidos por quatro pós-doutorandos: Fernanda Crunfli, Flávio P. Veras, Victor C. Carregari e Pedro H. Vendramini.

Fonte: Agência FAPESP

Febre pode ser aliada contra a COVID em estágios iniciais da doença

Em artigo publicado no Journal of the Royal Society of Medicine, o professor Alexandre Steiner, do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, propõe que os médicos repensem a administração de antitérmicos nos estágios iniciais da covid-19. De acordo com o pesquisador, a febre tem um importante papel não só no combate de infecções como no desenvolvimento da memória imunológica, que é criada após o primeiro contato com um agente infeccioso.

O conhecimento sobre os benefícios da febre não é novo. “Muitas pesquisas indicam que o aumento da temperatura ajuda o sistema imune a combater patógenos. Diversas funções imunológicas se tornam mais eficazes e a atividade antiviral é uma delas”, diz Alexandre Steiner. O cientista cita como exemplo um dos primeiros estudos feitos sobre o tema, na década de 1970, no qual pesquisadores infectaram dois grupos de lagartos com uma bactéria e os dividiram em dois ambientes com temperaturas diferentes. No ambiente mais quente, mais animais sobreviveram.

Alguns estudos com pacientes também mostram que o uso de antitérmicos no início de uma infecção pode ajudar a prolongá-la e aumentar o risco de complicações. “Dois ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo em voluntários infectados com rinovírus, mostraram que o uso de aspirina, paracetamol ou ibuprofeno está associado ao aumento ou prolongamento da eliminação viral. Em um desses ensaios, aspirina e paracetamol demonstraram suprimir a resposta de anticorpos neutralizantes e, paradoxalmente, piorar os sintomas nasais”, afirma o professor no artigo.

A memória imunológica ou imunidade adquirida é outro processo que pode ser influenciado positivamente pela febre. Para criar essa memória, as células dendríticas do sistema imune apresentam os antígenos, o que está atacando o organismo, aos linfócitos, células que “guardam” a resposta imune. Segundo Steiner, com a temperatura mais alta, essa apresentação acontece de forma muito mais eficaz. Assim, o uso indiscriminado de antitérmicos no início da infecção poderia afetar o desenvolvimento de uma imunidade de rebanho contra o SARS-CoV-2. “A imunidade de rebanho depende do desenvolvimento de imunidade adquirida específica contra o vírus. Então, não se trata apenas de uma questão de tratamento individual, mas de saúde pública.”

O pesquisador ressalta que embora a febre tenha um custo metabólico os seus benefícios excedem os custos na fase inicial de uma infecção pois o organismo ainda não está debilitado pelo combate ao patógeno. “Com base em todas essas evidências, a proposta é não interferir na febre nos primeiros dias de infecção e dar uma chance maior para o organismo combater a doença por conta própria, reduzindo assim as chances de desenvolver um quadro grave”, acrescenta.

Fonte: Jornal da USP

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