Úlcera do Pé Diabético

Texto Escrito Por: Enf. Dr. Marcelo Monteiro Mendes (http://lattes.cnpq.br/2067150460562125)

Sabe-se que a prevalência de Diabetes Mellitus no mundo vem aumentando de forma progressiva e preocupante nos últimos anos, com mais de 500 milhões de pessoas e uma das principais complicações da diabetes é a chamada úlcera do pé diabético, popularmente conhecida como “pé diabético”.

A Diabetes Mellitus é uma doença crônica que frequentemente faz com que os pacientes sejam submetidos a internações e procedimentos cirúrgicos, em função das complicações da Diabetes Mellitus que são muito prevalentes. Além disto, existe um maior risco de complicações pós-operatórias no paciente com Diabetes Mellitus, levando a uma difícil cicatrização.

Há uma prevalência de feridas em pacientes com Diabetes Mellitus, em especial a Úlcera do Pé Diabético, que acontece em função da dificuldade de cicatrização, do comprometimento da microcirculação e da neuropatia periférica diabética (complicações nos nervos periféricos ocasionada pela diabetes), o que ocasiona uma diminuição na sensibilidade e dificuldade de percepção de lesões nas extremidades.

Cabe destacar que a Úlcera do Pé Diabético acomete cerca de 1/3 dos indivíduos com Diabetes Mellitus ao longo da vida; causa sofrimento crônico e piora na qualidade de vida; as taxas de mortalidade chegam a 30% em 05 anos e até 50% em casos de amputação e ainda geram um custo de cerca de U$ 80 bilhões para o sistema de saúde dos Estados Unidos no ano de 2017, semelhante aos custos com câncer.

A Úlcera do Pé Diabético está entre as principais causas de hospitalizações de pacientes com Diabetes Mellitus nos países desenvolvidos, e desponta entre as principais causas de morbimortalidade, com um tempo médio de 06 meses de cicatrização, podendo levar a amputação em quase 30% dos casos.

Um estudo nacional destacou a incidência de amputações de membros em pacientes diabéticos, com cerca de 13,9 a cada 100 mil habitantes da população em geral e 180,6 a cada 100 mil habitantes com Diabetes Mellitus, ou seja, em pacientes com Diabetes Mellitus a taxa é cerca de 13 vezes maior.

Cuidados de prevenção e de diagnóstico e tratamento precoces em pacientes com risco de desenvolver Úlcera do Pé Diabético, podem ser primordiais para retardar ou evitar desfechos diversos, entre eles as amputações precoces. Recomenda-se uma avaliação abrangente dos pés durante a consulta, no mínimo uma vez ao ano, ou sempre que o paciente relatar alguma queixa. Importante monitorar os principais fatores de risco: controle glicêmico irregular, neuropatia periférica, tabagismo (fumo), deformidade nos pés, ulceração e/ou amputação prévia, retinopatia (problemas nos olhos) e nefropatia diabética (problemas nos rins). Necessário destacar que o tratamento da Úlcera do Pé Diabético é multiprofissional e envolve o paciente, a família e depende da categoria de risco de cada ferida.

Os indivíduos com Diabetes Mellitus podem apresentar prejuízo significativo na cicatrização além de maior risco no processo cicatricial por apresentarem pele com propriedades biomecânicas ruins, maior rigidez e menor flexibilidade, o que acarreta aumento considerável para o risco de lesões. Apresentam ainda maior infiltração de células imunes e função comprometida destas células de defesa.

A cicatrização é dividida em 03 fases sequenciais: inflamatória, proliferativa e de maturação ou remodelamento. Nos pacientes com Diabetes Mellitus há um prolongamento da fase inflamatória em função do acúmulo de células inflamatórias e produção excessiva de substâncias inflamatórias, fazendo com que a ferida não avance para as próximas fases do processo cicatricial. Com isto há um retardo na síntese de colágeno e a redução da força tênsil, o que dificulta o processo de cicatrização da Úlcera do Pé Diabético. Estes fatores agem de ao mesmo tempo e resultam na redução da resistência da ferida e aumento de deiscência (rompimento das margens das feridas operatórias), que somadas ao grande risco de infecções nos pacientes com Diabetes Mellitus, aumentam expressivamente o tempo de hospitalização e a taxa de mortalidade.

Referências:

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