Novo alvo terapêutico para insuficiência cardíaca é descoberto

A insuficiência cardíaca é uma síndrome caracterizada pela incapacidade do coração em manter fluxo de sangue adequado para os diversos órgãos e tecidos do corpo. Segundo dados do Ministério da Saúde, nos últimos dez anos a insuficiência cardíaca foi responsável por 228.239 óbitos, sendo que 3.047 foram apenas nos dois primeiros meses deste ano. Atualmente, existe uma preocupação com o aumento desses números em função dos casos de covid-19, que está relacionada com a disfunção desse órgão.

Milene Tavares Fontes – Foto cedida pela pesquisadora

Com objetivo de entender essa doença que compromete a saúde pública, pesquisadores do Laboratório de Fisiologia Vascular do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP passaram a investigar para além do coração e buscaram compreender o comportamento dos principais vasos sanguíneos próximos ao órgão. O novo estudo demonstrou que a camada de gordura que envolve esses vasos, chamada de tecido adiposo perivascular, está relacionada à perda da capacidade dos vasos de se adequarem ao fluxo sanguíneo bombeado. Essa incapacidade decorre da carência na função anticontrátil deste tecido, o que sobrecarrega o funcionamento do coração e pode agravar a doença. Os dados inéditos abrem novas perspectivas de estudos na área e apontam o tecido adiposo perivascular como um novo alvo para tratamentos médicos que visam à melhora do quadro clínico desta síndrome complexa.

O estudo faz parte da pesquisa de doutorado de Milene Tavares Fontes, com orientação da coordenadora do laboratório, professora Luciana Venturini Rossoni, e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O artigo intitulado Renin–angiotensin system overactivation in perivascular adipose tissue contributes to vascular dysfunction in heart failure foi publicado na revista Clinical Science, em dezembro de 2020.

Nós fomos o primeiro grupo, internacionalmente, a mostrar que a gordura perivascular perdia a função fisiológica na insuficiência cardíaca, que agora é uma doença não somente do coração e da camada endotelial, fina camada interna, dos vasos sanguíneos, mas também da gordura perivascular”, afirma a orientadora do trabalho, Luciana Rossoni.

Na insuficiência cardíaca, os grandes vasos que saem do coração no sentido dos demais órgãos e tecidos, as artérias (como a aorta), apresentam uma disfunção: uma contração exacerbada que as enrijece e dificulta a sua maleabilidade, característica esta que permite o fluxo sanguíneo ideal. Um dos sistemas que regulam essa contração dos vasos é denominado “renina angiotensina”, responsável pela liberação de hormônios que, via ação em receptores, podem contrair e/ou relaxar os vasos, como a angiotensina II. Estudos até então esquecidos na literatura científica indicavam que o tecido adiposo perivascular produzia substâncias que controlavam a contração vascular, assim como constituintes desse sistema. Os cientistas do ICB resgataram esses dados e buscaram verificar se essa camada de gordura mantinha ou deixava de exercer essa função fisiológica nas artérias na insuficiência cardíaca.

Por que esse efeito anticontrátil é tão importante?

De acordo com Luciana, o primeiro vaso que recebe o volume que o ventrículo esquerdo (câmera cardíaca) ejeta para ser distribuído pelo organismo é a artéria aorta. Ela exemplifica que, se esse vaso perde a capacidade de se deformar e acomodar o volume de sangue ejetado, gera-se uma resistência contra a função de bomba do coração. Essa disfunção é preocupante quando representa uma resistência ao coração que não está em funcionamento normal. “Isso é o que chamamos de sobrecarga, que piora o bombeamento do coração e gera um círculo vicioso para a piora do quadro da insuficiência cardíaca”, afirma ao Jornal da USP.

Para avaliar o papel da gordura externa que reveste essa artéria, animais modelos foram induzidos ao quadro de insuficiência cardíaca pelo infarto do miocárdio, tecido do coração, por meio da ligadura da artéria coronária, ao interromper o fluxo de sangue que nutre uma porção do tecido cardíaco. Após 12 semanas da cirurgia e a confirmação do quadro de insuficiência cardíaca, a aorta dos animais foi analisada através de uma gama de ensaios hemodinâmicos, bioquímicos, moleculares e funcionais in vivo in vitro para medir a atividade das enzimas do sistema renina angiotensina, a expressão dos constituintes desse sistema e também a resposta de contração dos vasos. 

Esquema por Lívia Magalhães com imagens de Pixabay

Os resultados mostraram que, em comparação aos animais saudáveis, a gordura perivascular dos animais com insuficiência cardíaca apresentava aumento na atividade da enzima conversora da angiotensina, enzima-chave desse sistema para a produção de angiotensina II, e da própria angiotensina II. Os vasos desses animais, por sua vez, apresentaram perda do efeito anticontrátil da gordura perivascular, que era revertida com o bloqueio agudo dos receptores para angiotensina II.

O estudo mostrou que a perda da função da camada de gordura que reveste os vasos e a ativação do sistema renina angiotensina neste tecido têm um papel primordial na ativação do sistema de contração nos vasos, sendo um fator determinante para a evolução e o agravamento da doença.

Luciana Venturini Rossoni – Foto cedida pela pesquisadora

“Nós fomos o primeiro grupo, internacionalmente, a mostrar que a gordura perivascular perdia a função fisiológica na insuficiência cardíaca, que agora é uma doença não somente do coração e da camada endotelial, fina camada interna, dos vasos sanguíneos, mas também da gordura perivascular”, afirma Luciana.

A cientista também explica que gordura perivascular na aorta é predominantemente formada por gordura marrom, saudável, e que os dados também apontam que a gordura que revestia a aorta dos animais insuficientes mudava de marrom para branca, de característica boa para ruim.

“O estudo mostrou que o tecido adiposo perivascular pode ser um alvo importante para novas terapêuticas”, diz a pesquisadora ao Jornal da USP. Ela destaca que os dados abrem precedente para o desenvolvimento de novas manobras que podem melhorar a condição dessa gordura e, portanto, melhorar a qualidade do vaso e a sobrecarga do coração.

A próxima etapa da pesquisa está voltada para a aplicação de exercícios físicos em animais doentes como uma possível estratégia para a melhora da condição de insuficiência cardíaca. A doutoranda adianta que os dados são promissores: “Os resultados estão demonstrando que o treinamento físico é capaz de reverter parte dos danos causados pela insuficiência cardíaca nessa camada de gordura. O exercício físico pode ser utilizado como uma ferramenta não farmacológica, coadjuvante no tratamento da insuficiência cardíaca”, afirma Milene.

Mais informações: e-mail lrossoni@icb.usp.br, com Luciana V. Rossoni

Fonte: Jornal da USP

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