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Gestantes com deficiência: como enfrentar essa dupla vulnerabilidade?

Durante minha trajetória profissional, trabalhando com saúde da mulher, fui surpreendida diversas vezes com questionamentos sobre a possibilidade de mulheres com deficiência, inclusive física, poderem engravidar e parir.

O espanto da sociedade diante da resposta: “SIM, elas podem realizar o sonho da maternidade” nos faz refletir sobre o quanto a condição da deficiência se sobrepõe à pessoa, uma vez que historicamente a mulher com deficiência foi vítima de uma carga de opressão sexual, social e emocional.

Vale salientar, antes de tudo que a gestação por si só promove modificações e adaptações no organismo materno independentemente da presença de condições prévias. Tais fatores são fundamentais para um acompanhamento com uma equipe interdisciplinar que proporcione uma assistência segura e respeitosa à dupla mãe-bebê.

Ora, se todas as mulheres podem enfrentar medos e anseios diante das mudanças corporais e fisiológicas inerentes aos períodos pré e pós-parto, quais serão as dificuldades encontradas pelas gestantes, parturientes e puérperas com alguma deficiência? 

Podemos, dessa forma apresentar uma imensa lista de marcadores sociais capazes de duplicar a vulnerabilidade das mulheres com deficiência: estigmas, desigualdade de gênero, preconceito, dificuldade de acesso, justiça, saúde e benefícios sociais. Além disso, a baixa  capacitação dos profissionais e os poucos estudos sobre a temática geram lacunas na educação em saúde, limitando a oferta de informações acerca dos direitos sexuais e reprodutivos dessas mulheres. 

E quanto aos riscos? Sim, eles também podem existir. Por se tratar de um período caracterizado por mudanças físicas, psíquicas, biológicas e espirituais, doenças prévias diagnosticadas podem se agravar, assim como a própria gestação pode desencadear riscos para mãe e bebê. Desta forma, é fundamental o acompanhamento por uma equipe comprometida que atenda integralmente às suas especificidades, contemplando os fatores de interferência que a deficiência possa exercer sobre a gestação.

Para isso, o respeito pelas escolhas e a confiança serão pontos-chave desde o planejamento familiar até a condução da gravidez, parto e pós-parto. A participação ativa na tomada de decisão, o apoio recebido pelos amigos e familiares, a troca de saberes com outras mulheres com deficiência que gestaram, pariram e possuem experiência no assunto podem contribuir com maior segurança e autonomia.

O pré-natal deve ser iniciado logo após a descoberta da gravidez, tornando-se peça principal para a proteção da saúde materno-infantil. Os exames laboratoriais, as ultrassonografias e o calendário de consultas e vacinas devem seguir as recomendações e protocolos de órgãos como a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde.

Com relação à via de parto, a escolha por um parto normal ou cesariana poderá ser feita pela mulher desde que não ofereça comprometimento da saúde materna e fetal, assim como as informações envolvendo intervenções (ex.: rompimento da bolsa amniótica e toques vaginais) vantagens e desvantagens, bem como os riscos envolvidos.

Por último, mas não menos importante, temos o pós-parto, comumente relacionado a sentimentos de tristeza, incertezas e medos sobre a chegada do bebê. As redes de apoio neste momento se revelam como âncoras para colaborar na autoestima, autoconfiança e no empoderamento da mulher.

No sentido de reduzir as chances de violência obstétrica às mulheres, especialmente aquelas com deficiência, que já se apresentam vulneráveis por essa condição, uma alternativa de informação mais efetiva seria a oferta de atividades lúdicas consideradas atrativas e acessíveis como podcasts, vídeos ilustrativos ou cartilhas em braile.

Esperamos que o texto proporcione uma reflexão sobre a extrema necessidade de romper estereótipos, aumentar a visibilidade e promover o alcance da humanização na gestação, parto e nascimento para todas as mulheres com deficiência.

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade” Simone de Beauvoir, 1967.

SAIBA MAIS

Autores:

Geyslane Pereira Melo de Albuquerque. Enfermeira pela Universidade Federal de Pernambuco/ Centro Acadêmico de Vitória (UFPE-CAV). Doutoranda pelo Programa Associado de Pós-Graduação em Enfermagem. Lattes: http://lattes.cnpq.br/4014711467514511

Profª Draª Fabiana Faleiros. Professora Doutora do Departamento Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Profª Draª Marislei Sanches Panobianco. Enfermeira. Professora Associada do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e de Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Profª Draª Soraia Assad Nasbine Rabeh. Enfermeira. Professora Doutora do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

12 thoughts on “Gestantes com deficiência: como enfrentar essa dupla vulnerabilidade?

  1. Lise says:

    Que texto importante para contextualizar a situações de mulheres, inclusive com deficiência no processo de gestação, tendo seus seus direto e garantia de escolha e sua autonomia devem ser respeitada!

  2. Erica Lins says:

    Muito bom!!!!! Importantissimo falar sobre mulheres PCDs e suas gestações!
    Fantástico!
    Tive o prazer de conhecer a Enfermeira Geyslane, profissional EXTREMAMENTE COMPETENTE e com “sede” de conhecimento!
    Sucesso!!!

  3. Dágina Feliciana says:

    Texto excelente!!! Com uma discursiva bem compreensível, o texto nos leva a reflexão que mesmo com algumas limitações por alguma deficiência mulheres podem sim engravidar. Bom seria a propagação dessas informações, para que, mulheres que se sentem incapazes se empoderem do assunto, principalmente aquelas que são desprovidas de educação em saúde. Parabéns pelo tema abordado, pois ele contribuiu muito para minha formação.

  4. Geysi Cabral says:

    Ótima abordagem desse texto.
    Precisamos mesmo voltar o olhar para essas mulheres que são capazes sim de gestar e parir. Parabéns Geyslane 👏👏 ótimo conteúdo.

  5. Duarte, Raquel T. says:

    Parabéns pelo texto. Realmente, quando falamos de gestação, temos um olhar generalista. Ao abordar esse assunto, você consegue despertar em nós que toda a gestante tem sua singularidade, medos e conflitos (que devem ser trabalhados mostrando a gestante que ela é capaz sim, de ter seu filho), que muitas vezes passam despercebidos pela sociedade. […]

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