Ruth Santo e Ana Escobar comentam a importância de consultas regulares ao oftalmologista e do diagnóstico precoce para a manutenção de uma boa saúde ocular
Escrito por: Davi Milani
Retirado de: Jornal da USP
O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento.
No dia 10 de julho é celebrado o Dia Mundial da Saúde Ocular, criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conscientizar a população sobre a importância de cuidar da visão. Segundo a OMS, cerca de 75% dos casos de deficiência visual poderiam ser evitados com prevenção ou tratamento adequado. No Brasil, dados do IBGE mostram que mais de 6 milhões de pessoas vivem com algum tipo de deficiência visual, muitas delas causada por problemas que poderiam ter sido diagnosticados e tratados precocemente.
A atenção à saúde dos olhos deve começar ainda na infância. De acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), cerca de 20% das crianças em idade escolar apresentam alterações visuais, como miopia, hipermetropia e astigmatismo. Também existem doenças mais graves, como o retinoblastoma, um tipo de câncer ocular que afeta principalmente bebês e crianças pequenas. Quando descoberto cedo, as chances de cura podem chegar a 90%, muitas vezes preservando a visão da criança.
A pediatra Ana Escobar, professora da Faculdade de Medicina da USP, explica que o sistema visual não nasce completamente desenvolvido. Ele continua amadurecendo até os 7 ou 8 anos de idade. Por isso, enxergar bem durante os primeiros anos de vida é fundamental para o desenvolvimento do cérebro. Se a criança não recebe imagens nítidas pelos olhos nesse período, a visão pode não se desenvolver adequadamente.
Segundo a médica, existe uma fase chamada de “janela de oportunidade”, quando o cérebro tem maior capacidade de corrigir problemas visuais. Essa fase vai até aproximadamente os 6 ou 7 anos de idade. Depois disso, as possibilidades de recuperação diminuem bastante, podendo ocorrer perda visual permanente em alguns casos.
Os pais e responsáveis devem ficar atentos a sinais que podem indicar alterações na visão. Entre eles estão o aparecimento do chamado “olho branco” em fotografias, estrabismo, lacrimejamento excessivo, sensibilidade à luz, hábito de apertar os olhos para enxergar melhor e coceira frequente. Mudanças de comportamento também podem ser um alerta, como dificuldades na escola, falta de interesse por brincadeiras, tropeços frequentes ou dificuldade para participar de atividades do dia a dia.
Ana Escobar lembra que o “teste do olhinho” realizado na maternidade é apenas o primeiro passo. Mesmo crianças sem sinais aparentes de problemas devem passar por uma consulta com oftalmologista entre os 6 e 12 meses de vida. No entanto, ela destaca que muitas famílias encontram dificuldades para conseguir esse atendimento pelo sistema público, o que pode atrasar diagnósticos importantes.
Outro tema que preocupa os especialistas é o uso excessivo de telas. A oftalmologista Ruth Miyuki Santo, também professora da Faculdade de Medicina da USP, afirma que celulares, tablets, computadores e videogames fazem parte da rotina das crianças e dos adultos, tanto para lazer quanto para estudo e trabalho.
Segundo a médica, passar muito tempo olhando para telas exige um esforço constante dos músculos responsáveis pela focalização de objetos próximos. Enquanto olhar para longe permite que esses músculos relaxem, o uso prolongado das telas mantém esse esforço por várias horas. Esse hábito tem sido associado ao aumento dos casos de miopia, especialmente entre crianças e adolescentes.
Além disso, quando estamos concentrados em uma tela piscamos menos vezes. Como consequência, os olhos ficam mais ressecados, causando desconforto, ardência, sensação de areia nos olhos, visão embaçada e até dores de cabeça. Esse problema também afeta muitos adultos que passam grande parte do dia trabalhando em frente ao computador.
Os especialistas destacam que alguns cuidados simples ajudam a preservar a saúde ocular ao longo da vida. Entre eles estão manter uma alimentação equilibrada, controlar doenças como diabetes e hipertensão, fazer pausas durante o uso de telas e consultar regularmente um oftalmologista, mesmo na ausência de sintomas.
Com o avanço da idade, outras doenças passam a exigir atenção, como a catarata. Hoje, graças aos avanços das técnicas cirúrgicas e das lentes utilizadas nos procedimentos, muitas pessoas conseguem recuperar a visão e melhorar significativamente sua qualidade de vida após o tratamento.
Fatores ambientais também influenciam a saúde dos olhos. Baixa umidade do ar, poluição, uso excessivo de ar-condicionado e até o uso inadequado de produtos cosméticos podem causar irritações e desconfortos. Por isso, informação, prevenção e acesso aos serviços de saúde são fundamentais.
Para os especialistas, cuidar da visão é cuidar da qualidade de vida. Enxergar bem contribui para a autonomia, o aprendizado, o trabalho, o lazer e o bem-estar em todas as fases da vida. Por isso, a saúde ocular deve ser uma prioridade tanto para as famílias quanto para as políticas públicas de saúde.
