Ferramenta desenvolvida por pesquisadores da FEI e da Unifesp utiliza IA para interpretar expressões faciais de recém-nascidas com mais objetividade e precisão
Escrito por: Maria Fernanda Ziegler
Retirado de: Agencia FAPESP
O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento
Pesquisadores do Centro Universitário FEI e da Universidade Federal de São Paulo desenvolveram uma ferramenta de inteligência artificial capaz de identificar o nível de dor em recém-nascidos internados em UTIs neonatais com mais objetividade e precisão.
A tecnologia utiliza modelos multimodais de linguagem e visão, integrando imagens e textos para interpretar expressões faciais dos bebês. Isso representa um avanço importante, já que a avaliação da dor em recém-nascidos sempre foi um desafio clínico, por depender da observação de terceiros.
Segundo a pediatra Ruth Guinsburg, a dor é um fenômeno subjetivo e, como o bebê não consegue se comunicar verbalmente, diferentes observadores podem ter interpretações distintas:
“Como a dor é um fenômeno subjetivo e o bebê ainda não consegue se comunicar verbalmente, ele depende essencialmente da observação de terceiros.”
Em UTIs neonatais, são usadas escalas clínicas para medir dor, mas elas podem variar conforme o estado emocional de médicos, enfermeiros ou familiares. A IA surge justamente para reduzir essa subjetividade e apoiar decisões médicas com dados mais consistentes.
A pesquisa, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e publicada na revista Pediatric Research, mostrou que o sistema supera métodos tradicionais de deep learning. Um diferencial é que o modelo não precisa ser treinado separadamente para cada tarefa, o que amplia seu uso na prática clínica.
De acordo com o professor Carlos Eduardo Thomaz, o avanço se deve aos modelos multimodais modernos:
“Com a chegada dos modelos de linguagem multimodais […] tornou-se possível utilizar modelos pré-treinados em uma imensidão de dados da internet para resolver tarefas médicas específicas com maior rapidez.”
A relevância da ferramenta é grande: um bebê internado pode passar por até 13 procedimentos dolorosos por dia, como punções e intubações. O desafio médico é equilibrar o alívio da dor sem causar efeitos adversos por excesso de medicação.
A própria compreensão científica mudou ao longo do tempo. Até os anos 1990, acreditava-se que recém-nascidos não sentiam dor. Hoje se sabe que, por terem o sistema nervoso imaturo, eles são ainda mais vulneráveis aos efeitos do sofrimento.
No futuro, a expectativa é que a tecnologia funcione como um monitor em tempo real, semelhante aos equipamentos cardíacos e respiratórios, emitindo alertas e ajudando a ajustar o uso de analgésicos com mais precisão.
Como resume o engenheiro Lucas Pereira Carlini:
“Buscamos sempre mais precisão, mas é importante lembrar: o que cada ponto percentual de acerto representa para um bebê?”

