Especialistas alertam que o diagnóstico de cegueira ou baixa visão dispara um processo profundo de luto, tornando o acompanhamento psicológico essencial para preservar a saúde mental e a autonomia dos pacientes.
Escrito por: Paulo Capuzzo
Retirado de: Jornal da USP
A perda ou redução drástica da visão vai muito além de um desafio físico: trata-se de um impacto emocional profundo que pode comprometer a saúde mental. Durante o Setembro Amarelo, mês voltado à prevenção do suicídio e aos cuidados com a saúde mental, psicólogos e profissionais da saúde alertam para a forte relação entre a deficiência visual, o desenvolvimento de quadros depressivos e o aumento do risco de suicídio.
A diminuição da capacidade visual afeta diretamente a autonomia e o cotidiano. No Brasil, o Censo Demográfico de 2022 apontou que 7,9 milhões de pessoas têm dificuldade para enxergar, tornando a deficiência visual a forma mais frequente de limitação física no país. O problema também traz impactos globais: estima-se que a perda de visão gere um prejuízo financeiro anual de US$ 411 bilhões no mundo devido à redução na produtividade do trabalho.
O processo de luto pela perda da visão
Quando uma pessoa recebe o diagnóstico de cegueira ou passa a viver com baixa visão, ela enfrenta um processo de luto estrutural — a dor simbólica pela perda do sentido da visão. Essa transição costuma ser acompanhada por um misto de ansiedade, frustração, desconsolo e sentimento de incapacidade diante das tarefas mais simples do dia a dia.
Segundo os especialistas, a impossibilidade de realizar atividades rotineiras sem auxílio e o medo do isolamento social alimentam uma sobrecarga emocional contínua. Caso não haja o suporte psicológico e social adequado, esse estado de desespero e inconformismo pode evoluir para a depressão grave e, nos casos mais extremos, para a ideação suicida.
Autonomia e acompanhamento especializado
Para conter esses impactos, profissionais destacam que o acolhimento deve começar no instante do diagnóstico. A reabilitação visual não deve focar apenas nos aspectos médicos ou no uso de tecnologias assistivas, mas também no fortalecimento emocional e na reorganização do projeto de vida do paciente.
Garantir a máxima autonomia possível a quem perdeu ou está perdendo a visão é o passo mais importante para aliviar a pressão psicológica. O acesso à psicoterapia, o apoio familiar e o aprendizado de novas formas de mobilidade e convivência ajudam a resgatar a confiança individual, provando que a adaptação é possível e que a saúde mental deve ser priorizada em todas as etapas desse processo.

