Primeiro episódio, já disponível, abordou os desafios de acessibilidade enfrentados por pessoas cegas no ensino superior
Escrito por: Evelyn Rodrigues *Sob supervisão de Antonio Carlos Quinto*
Retirado de: Jornal da USP
O Centro de Pesquisa e Orientação sobre Deficiência Visual (CPODV), sediado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, lançou um podcast gratuito para levar debates sobre inclusão, acessibilidade e direitos para além dos muros da universidade. Disponível no YouTube, a iniciativa busca aproximar a sociedade dos estudos científicos e dar visibilidade às experiências das próprias pessoas com deficiência visual.
O primeiro episódio já está no ar e aborda os desafios enfrentados por estudantes cegos na faculdade. Apresentado pelo professor Rafael Yagüe Ballester, da Faculdade de Odontologia (FO) da USP, o programa reuniu a professora Renata Barbosa Vicente, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), e a estudante e pesquisadora da USP Ana Luiza Mikley Vinturini.
Durante o debate, os participantes detalharam barreiras comuns do dia a dia acadêmico, como arquivos digitais em PDF mal formatados, programas de computador incompatíveis com leitores de tela, escassez de materiais em braile e a falta de preparo de professores e equipes escolares para lidar com a inclusão. O episódio também apresentou um projeto da UFRPE voltado à inclusão digital e educação financeira para idosos.
Pesquisa que sai das prateleiras
A ideia de criar o podcast surgiu do desejo de fazer o conhecimento científico chegar à população em um formato acessível e fácil de ouvir. Para a coordenadora do centro e professora da FFLCH, Maria Célia Pereira Lima Hernandes, a comunicação direta evita que os avanços fiquem restritos ao ambiente acadêmico.
“Muita invenção importante e que teria impacto positivo na vida das pessoas acaba ficando nas prateleiras das universidades, e isso não queríamos que ocorresse”, destaca a coordenadora.
O CPODV é um dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em parceria com a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Coordenado pela professora Maria Célia ao lado do professor Cleyton Fernandes Ferrarini, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o centro reúne cientistas de diversas áreas para desenvolver tecnologias assistivas — ou seja, recursos e ferramentas adaptadas que ajudam a promover a autonomia e a qualidade de vida.
Protagonismo e construção conjunta
Um dos diferenciais do trabalho desenvolvido no centro é a participação ativa das pessoas com deficiência visual em todas as fases das pesquisas, garantindo que as soluções criadas atendam a necessidades reais.
Segundo Nelson Alves Caetano, chefe do Escritório de Apoio Institucional ao Pesquisador da FFLCH e membro do CPODV, a criação do centro responde a lacunas históricas na oferta de serviços públicos e políticas de inclusão.
“Elas não são apenas beneficiárias, mas protagonistas do processo, contribuindo com suas experiências e perspectivas em conselhos consultivos, grupos de trabalho e oficinas colaborativas”, explica Nelson, ressaltando que o podcast reforça esse compromisso ao abrir um canal permanente de informação, escuta e conscientização para a sociedade.

