Crianças têm substituído conflitos por aparelhos tecnológicos, de acordo com doutoranda Ísis Madi
Escrito por: Breno Marino Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo
Retirado de: Jornal da USP
O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento.
A contação de histórias, prática ancestral presente desde registros como as Fábulas de Esopo e até pinturas rupestres, continua sendo essencial para o desenvolvimento humano, especialmente na infância. No entanto, esse hábito vem sendo ameaçado pela presença cada vez mais precoce das tecnologias digitais na vida das crianças.
Segundo a pesquisadora Ísis Madi, da Faculdade de Educação da USP, o uso constante de telas tem reduzido a capacidade de imaginação e reflexão:
“Todo conflito, hoje, é substituído por uma tela. É como se fosse uma chupeta.”
Ela destaca que muitas crianças têm dificuldade em lidar com o tédio, algo fundamental para o desenvolvimento da criatividade e da autonomia emocional. Sem esse tempo de pausa, diminui também a capacidade de criar ideias próprias.
Imaginação em risco
Outro ponto levantado é o impacto das imagens prontas, comuns em vídeos, jogos e redes sociais. Quando personagens e cenários já vêm definidos, a criança deixa de exercitar a construção mental dessas imagens, o que enfraquece uma habilidade essencial do desenvolvimento cognitivo.
Nesse sentido, a contação de histórias funciona como um “respiro” em meio a uma cultura que valoriza produtividade e estímulos constantes.
Um traço essencialmente humano
A professora Sabrina da Paixão reforça que narrar histórias é uma característica central da humanidade:
“Toda vez que a gente começa a falar de contação de histórias, a gente vai remontar às cavernas, às fogueiras.”
Cada história é vivida de forma única por quem escuta, pois carrega experiências, emoções e contextos diferentes. Para as crianças, isso permite experimentar sentimentos e ampliar formas de compreender o mundo.
Além disso, as memórias ligadas às histórias vão além do conteúdo em si. Muitas vezes, o que permanece é o vínculo afetivo com quem contou a história, como a voz de um avô ou a presença de um professor.
O papel das escolas e bibliotecas
Para enfrentar os impactos das tecnologias, especialistas apontam a importância de fortalecer espaços de leitura, como bibliotecas escolares. Mais do que locais de consulta, esses ambientes precisam se tornar espaços vivos de convivência, imaginação e narrativa.
Como destaca Sabrina, é necessário repensar o uso desses espaços:
“Temos que alterar isso”, afirma, ao criticar a utilização das bibliotecas apenas para tarefas avaliativas.
No fim, a discussão não é sobre eliminar a tecnologia, mas equilibrá-la com práticas fundamentais para o desenvolvimento humano. A contação de histórias segue sendo uma das mais poderosas.

