Pesquisa brasileira mostra que células pancreáticas estreladas, ao produzir periostina, remodelam o tecido e facilitam a infiltração tumoral, mecanismo-chave para a agressividade e alta mortalidade da doença
Escrito por: Fernanda Bassette | Agência FAPESP
Retirado de: Agência FAPESP
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Um novo estudo brasileiro revelou um mecanismo importante que ajuda a explicar por que o câncer de pâncreas é tão agressivo. A pesquisa foi publicada na revista científica Molecular and Cellular Endocrinology e mostra o papel central de uma proteína chamada periostina e de células conhecidas como células pancreáticas estreladas na rápida disseminação desse tipo de câncer pelo organismo.
Segundo o estudo, o tumor consegue “reprogramar” parte do tecido saudável ao seu redor. Esse processo facilita a infiltração das células cancerígenas nos nervos próximos, o que acelera a progressão da doença e aumenta o risco de metástases. Os pesquisadores apontam que esse mecanismo pode se tornar um alvo importante para tratamentos mais precisos e personalizados no futuro.
O tipo mais comum de câncer de pâncreas é o adenocarcinoma, responsável por cerca de 90% dos casos. Ele se origina nas células que produzem o suco pancreático e é conhecido por ser altamente agressivo. Apesar de não ser um dos cânceres mais frequentes, apresenta um número de mortes muito próximo ao de novos diagnósticos. No mundo, surgem cerca de 510 mil novos casos por ano, praticamente o mesmo número de óbitos.
No Brasil, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer, são aproximadamente 11 mil novos casos e 13 mil mortes por ano. “É um câncer difícil de tratar. Apenas cerca de 10% dos pacientes conseguem sobreviver por cinco anos ou mais após o diagnóstico”, explica o oncologista Pedro Luiz Serrano Uson Junior, um dos autores do estudo.
Um dos principais fatores ligados à agressividade desse câncer é a chamada invasão perineural, que ocorre quando as células tumorais passam a se espalhar ao longo dos nervos. Além de provocar dor intensa, esse processo facilita a chegada do câncer a outras partes do corpo. “A invasão perineural é um sinal claro de agressividade do tumor”, afirma Uson.
A pesquisa foi realizada no Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias, ligado à FAPESP, e teve como primeiro autor o pesquisador Carlos Alberto de Carvalho Fraga. Para entender melhor esse processo, os cientistas usaram tecnologias avançadas capazes de analisar a atividade de milhares de genes em cada célula e identificar sua localização exata no tecido. “Conseguimos integrar dados de dezenas de amostras com um nível de detalhe muito alto”, explica Helder Nakaya, pesquisador responsável pelo estudo.
Ao analisar 24 amostras de câncer de pâncreas, os pesquisadores perceberam que o estroma, tecido que dá sustentação ao tumor, participa ativamente da progressão da doença. Um dos principais achados foi o comportamento das células pancreáticas estreladas, que produzem grandes quantidades de periostina, uma proteína que altera a estrutura do tecido ao redor do tumor.
Para alcançar os nervos, as células cancerígenas precisam modificar intensamente esse tecido de suporte. A periostina participa desse processo, ajudando a reorganizar a matriz que mantém o tecido saudável e abrindo caminho para a invasão. Nesse contexto, os nervos acabam funcionando como verdadeiras “vias de passagem” para a expansão do câncer.
Essas alterações também provocam uma reação chamada desmoplasia, uma fibrose intensa ao redor do tumor. Esse tecido fica mais rígido e inflamado, o que dificulta a chegada de medicamentos como quimioterapia e imunoterapia. “Esse ambiente protege o tumor e ajuda a explicar por que o câncer de pâncreas ainda é tão difícil de tratar”, destaca Uson.
O oncologista reforça que essa capacidade de infiltrar tecidos saudáveis está diretamente ligada ao mau prognóstico da doença. Muitas vezes, a invasão perineural já está presente desde os estágios iniciais, mas só é identificada durante a cirurgia, quando o material é analisado em laboratório.
Diante desse cenário, os pesquisadores apontam a periostina como um alvo promissor para novas terapias. Bloquear essa proteína ou eliminar as células que a produzem pode ajudar a reduzir a invasão dos nervos e limitar a disseminação do câncer. Ensaios clínicos em outros tipos de tumor já testam medicamentos contra a periostina, o que abre caminho para estudos semelhantes no câncer de pâncreas.
Segundo Uson, essa abordagem faz parte do avanço da medicina de precisão. A ideia é desenvolver tratamentos direcionados aos mecanismos específicos que tornam o tumor mais agressivo. Além disso, estratégias semelhantes poderiam ser úteis em outros cânceres que apresentam o mesmo tipo de invasão, como os de intestino e de mama.
Por fim, o estudo também mostra o potencial do uso de grandes bancos de dados científicos para gerar novas descobertas. O próximo passo dos pesquisadores é transformar esse conhecimento em tratamentos capazes de agir antes que a invasão dos nervos aconteça. “No futuro, vamos tratar os pacientes com base nas alterações moleculares do tumor. Esse é um dos grandes caminhos da oncologia moderna”, conclui Uson.
O artigo completo pode ser lido no link: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0303720725002291.
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