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Insônia digital na adolescência

Luz azul, conteúdo infinito e algoritmos viciantes reduzem drasticamente o sono dos jovens, causando impactos cognitivos, emocionais e físicos

Escrito por: Luli Radfahre

Retirado de: Jornal da USP

O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento

Não se trata de impressão, mas de um fato: os adolescentes de hoje estão dormindo menos do que o recomendado, que é de oito a dez horas por noite. Em vez disso, dormem, em média, seis horas e meia. A causa, segundo Luli Radfahrer, está no tempo excessivo diante das telas do celular, seja nas redes sociais, em maratonas de jogos ou em séries de streaming, configurando um consumo digital compulsivo.

A equação é simples: quanto mais smartphone, menos sono. “Não é coincidência, é uma combinação explosiva. O conteúdo é infinito, sem ponto de parada; os algoritmos aprendem exatamente o que prende a atenção; há toda a pressão social para estar on-line. E, além de tudo, tem a luz azul, que literalmente suprime os hormônios do sono. Antigamente, a escuridão impunha o sono. Sem luz artificial, o ritmo humano se alinhava com o pôr do sol. Daí veio a luz elétrica, mas, mesmo assim, a programação da TV acabava, o videogame estava num console compartilhado na sala e até mesmo os livros exigiam uma energia mental que, eventualmente, levava ao sono. Os smartphones eliminaram todas essas restrições. Agora, o entretenimento é infinito”, diz o colunista.

Segundo ele, ficar acordado até tarde consumindo conteúdo tornou-se parte da identidade adolescente. “É a cultura da produtividade invadindo a juventude; e não adianta o pai insistir para o filho dormir cedo se ele próprio não respeita essa regra. É como pedir para a criança comer verdura sem dar o exemplo.”

O problema é que o corpo cobra o preço dessa privação contínua. “É a primeira geração cujo cérebro está sendo alterado pela privação crônica de sono durante a fase mais crítica do desenvolvimento. Pessoas privadas de sono apresentam declínio cognitivo, falhas na consolidação da memória, dificuldade de atenção e menor controle de impulsos. O risco de depressão e ansiedade aumenta muito. Somado à adolescência, isso só tende a piorar. Há também desregulação da fome, maior risco de obesidade e diabetes, resposta imunológica mais fraca, comprometimento do crescimento, pressão arterial elevada e desequilíbrio emocional. É uma bomba. Não é à toa que a privação de sono é usada como técnica de tortura […] Se isso fosse uma toxina ambiental, seria tratado como emergência de saúde pública. Mas, como é tecnologia, a gente aceita, o que é um erro.”

Por fim, ele ressalta que não se pode atribuir a responsabilidade apenas ao usuário, já que esses produtos são projetados para gerar dependência. “Essas empresas têm equipes inteiras de psicólogos e neurocientistas trabalhando com designers para manter você acordado. E o alvo são os adolescentes, que biologicamente têm menos controle de impulsos. Por isso, sempre que possível, o melhor é deixar a molecada dormir sempre que puder.”

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