CoronaVac pode ser mais eficiente quando aplicada com intervalo entre doses maior que 21 dias

A vacina CoronaVac tem eficácia de 62,3% quando aplicada em um intervalo maior de 21 dias. Além disso, é capaz de gerar anticorpos neutralizantes para as variantes P.1 e P.2 do sars-cov-2, em circulação no Brasil. Esses e outros resultados foram divulgados em artigo em versão preprint (sem revisão) no último domingo (11) e fazem parte do estudo clínico de fase 3 randomizado, duplo-cego, feito pelo Instituto Butantan em parceira com a farmacêutica chinesa Sinovac.

A pesquisa, realizada de 21 de julho a 16 de dezembro de 2020 em 16 centros de pesquisa clínica no Brasil, contou com a participação de 12.842 profissionais de saúde que trabalham na linha de frente no combate à covid-19. Deste total, 12.396 voluntários, 6.165 receberam, pelo menos, uma dose de CoronaVac e 6.201, placebo. Sobre o perfil dos participantes, 5% tinham mais de 60 anos, 64% eram mulheres e metade dos participantes (56%) tinha alguma comorbidade. Grávidas e lactantes foram excluídas do estudo.

Duas doses da CoronaVac, com intervalo de 14 dias entre elas, foram aplicadas em 9.823 indivíduos. Dos 253 casos de covid-19 confirmados na coorte, 85 casos estavam no grupo vacina e 168, no placebo. Nesse caso, a eficácia da vacina para casos leves de covid-19 foi de 50,7% (um estudo similar divulgado em janeiro apontava uma eficiência de 50,38%).

Nos casos moderados, ou seja, que precisam de assistência médica, a eficácia foi de 83,7% ante 78% do estudo preliminar. Nenhum caso grave foi relatado no grupo vacinado nos dois estudos.

Outro pequeno número de voluntários recebeu duas doses de vacina com intervalo de 21 dias ou mais. A eficácia, nesse grupo, ficou em torno de 62%.

Outros resultados

Dos indivíduos vacinados, 21 de 22 adultos com idade entre 18 e 59 soroconverteram, ou seja, desenvolveram anticorpos para combater a infecção: 21 deles para a B.1.1.28; 17 de 22 para a P.1; e 21 de 22 para a P.2. Das 23 amostras de participantes com 60 anos ou mais analisadas, 11 evidenciaram soroconversão para a B.1.1.28, 14 para a P.1 e 15 para a P.2.

As reações adversas mais relatadas após a vacinação foram dor no local da vacinação, dor de cabeça e fadiga. Foram descritos 67 eventos adversos graves por 64 participantes (33 no grupo de vacina e 31 no grupo de placebo), mas não foram relacionados à vacina.

Houve duas mortes na coorte: um caso de parada cardiorrespiratória (grupo placebo) e um caso de overdose de medicamentos (grupo da vacina), mas nenhuma delas teve relação com a CoronaVac.

Fonte: Jornal da USP

Satisfação e o sentido da vida para pessoas com lesão medular traumática

Acesse o artigo publicado pelo grupo de pesquisa do NeuroRehab, responsável pelo Portal D+Informação clicando aqui!!!

RESUMO

Objetivo: Analisar o sentido da vida, a satisfação com a vida e a influência de variáveis sociodemográficas em brasileiros com Lesão Medular Traumática. Trata-se de um estudo quantitativo, transversal e descritivo com participantes adultos com LM traumática.

Método:Os dados foram coletados por meio da plataforma Survey Monkey, utilizando o Questionário de Sentido da Vida e a Escala de Satisfação com a Vida; a amostra foi composta por adultos de 18 anos ou mais com LM traumática.

Resultados: A maioria dos participantes era do sexo masculino (75,5%), com média de idade de 36,22 anos. A pontuação média na Escala de Satisfação com a Vida foi de 21,26, o que corresponde à categoria pouco satisfeito. As pontuações médias, respectivamente, para busca e presença de sentido na vida foram 22,61 e 25,32, indicando que a maioria dos participantes acha a vida com sentido, embora não busque esse sentido explicitamente. Houve associações significativas entre satisfação com a vida e o sentido da vida.

Conclusão: O processo de reabilitação de pessoas com LM traumática deve conter a avaliação da satisfação e do sentido de vida em conjunto com outras variáveis psicológicas. O contexto de vida das pessoas que sofrem de uma LM traumática é complexo e há uma necessidade de compreensão holística e individualizada durante o processo de reabilitação.

Estudo mostra que primeira dose da CoronaVac é efetiva contra variante P.1 do coronavírus

A vacina CoronaVac continua a ser efetiva na prevenção da covid-19 na cidade de Manaus, no Amazonas, onde há o predomínio da variante P.1 do vírus Sars cov-2, que causa a doença. A conclusão faz parte dos resultados preliminares de um estudo feito com 67 mil profissionais de saúde que receberam a primeira dose da vacina em Manaus, coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e com participação da USP e outras universidades brasileiras, além de órgãos públicos do Amazonas e instituições de pesquisa do Brasil e da Espanha. O estudo calculou uma redução de 50% do risco de contágio, só com a primeira dose da vacina, o que os pesquisadores apontam como sinal de que a vacinação precisa continuar, mesmo com o aumento da transmissão da variante P.1.

Os resultados da pesquisa são apresentados em um artigo publicado como preprint (versão prévia de artigo científico) no site medRxiv em 7 de abril. André Siqueira, pesquisador da Fiocruz e um dos autores do artigo, disse ao Jornal da USP que, apesar de ser ainda uma análise inicial, o estudo de efetividade da vacina é robusto, pois foi feito com 67 mil profissionais de saúde da cidade de Manaus, onde a variante P.1 já é predominante. “Consideramos apenas uma dose em um período de segmento não tão longo”, avalia Siqueira. “É necessário continuar o estudo e fazer a sequência que já estava programada.”

André Siqueira – Foto: Rogério Fiocchi/FioCruz

Após a vacinação dos profissionais de saúde, foram selecionados grupos de pessoas que testaram positivo para a covid-19, a partir dos dados da vigilância epidemiológica, e outras que não tiveram a doença, no período entre 19 de janeiro e 25 de março, para calcular a efetividade da CoronaVac. “A estimativa de redução de risco é de 50%, ou seja, a capacidade da vacina prevenir o adoecimento pela covid-19, após 14 dias do recebimento da primeira dose, é de 50%”, apontam os pesquisadores Júlio Croda, da Fiocruz, e Otávio Ranzani, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e do Instituto de Saúde Global, em Barcelona (Espanha), que também participaram do estudo. Os dados sobre a efetividade da segunda dose ainda estão em fase de coleta.

Efetividade

Prefeitura de Manaus inicia vacinação de pessoas entre 45 e 49 anos, com comorbidades – Fotos: Valdo Leão / Semcom

De acordo com Croda e Ranzani, a importância de estudar a efetividade das vacinas onde a P.1 é prevalente é verificar se a vacina continua funcionando para essa variante. “Existem mutações importantes, algumas mais ligadas à transmissibilidade, como a 501, mas outras relacionadas a um possível escape imune, como a 484, presente nas variantes brasileira e sul-africana”, relata. “Há estudos preliminares, inclusive brasileiros, evidenciando queda de anticorpos neutralizantes, porém, ainda não há um valor que se possa dizer que, a partir de um certo momento de queda de anticorpos, você tem uma perda de efetividade da vacina.”

Júlio Croda, da Fiocruz – Foto: Rogério Fiocchi/Fiocruz

Siqueira explica, ainda, que o estudo contribuiu para mostrar, em um período curto de tempo, que a CoronaVac tem uma proteção considerável com uma dose em uma circulação elevada da variante P.1. “A pesquisa mostra que essa vacina tem a capacidade de proteção e uma das grandes preocupações em relação às novas variantes é a possibilidade de escape de resposta às vacinas”, diz o pesquisador. “Vamos seguir com a avaliação, mas os resultados dão respaldo para continuar com a vacinação mesmo com a circulação dessa variante.”

Croda e Ranzani reforçam que, como a pesquisa demonstrou que a CoronaVac manteve a efetividade, ela pode continuar a ser usada. “Ao mesmo tempo, estamos fazendo outros estudos, principalmente em colaboração com o governo do Estado de São Paulo, para avaliar a efetividade da CoronaVac e também da vacina AstraZeneca, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, junto à população acima de 60 anos de idade, o que não foi possível em Manaus”, relatam. “Além disso, também será possível entender qual é a efetividade das vacinas na prevenção de casos severos, que necessitem hospitalização, e de mortes.”

Otávio Ranzani – Foto: FMUS

As conclusões do trabalho são apresentadas no artigo Effectiveness of CoronaVac in the setting of high SARS-CoV-2 P.1 variant transmission in Brazil: A test-negative case-control study, publicado como preprint no site medRxiv em 7 de abril. A pesquisa teve a participação de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), da Universidades da Flórida, de Stanford e de Yale (Estados Unidos), da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), da Secretaria Municipal de Saúde de Manaus e da Fundação de Vigilância em Saúde do Estado do Amazonas.

Em São Paulo 

Uma outra pesquisa sobre a CoronaVac, realizada com profissionais do Hospital das Clínicas da FMUSP, traz resultados que corroboram a efetividade da vacina mesmo com o predomínio da variante P.1. 

Antes da vacinação dos funcionários do hospital, a incidência de casos de covid-19 no HC era semelhante à incidência geral da doença na população de São Paulo capital.

Duas semanas após a aplicação da segunda dose da vacina nos funcionários do hospital, houve 50,7% menos casos confirmados entre eles do que a taxa média de novos casos verificada na cidade.

E cinco semanas após a vacinação, o número de novos casos de covid-19 no HC foi 73,8% menor do que o registrado na população da capital.

O estudo feito entre os profissionais avaliou também a ocorrência de variantes do coronavírus. Dentre 142 amostras analisadas aleatoriamente, 67 foram identificadas como variantes, das quais 57 correspondiam à P.1 (do Amazonas), cinco B.1.1.7 (do Reino Unido) e outras cinco que não puderam ser identificadas pelos métodos utilizados no estudo. Essa análise sugere que a P.1 já era a variante de maior circulação em São Paulo quando os profissionais foram vacinados.

Fonte: Jornal da USP

Astrotubers usam a internet para ensinar astronomia de maneira fácil e divertida

Você já ouviu falar que o sol nasce no leste? Ou que as bússolas sempre apontam para o pólo norte? Apesar de ser comum escutar afirmações como estas, o estudo da astronomia demonstra que elas são incorretas. Para desvendar estas e outras questões do universo, o canal AstroTubers reuniu pesquisadores e profissionais da área astronômica na produção de vídeos no Youtube. O objetivo é tornar acessível ao público, com linguagem fácil de entender, pesquisas e outros estudos acadêmicos sobre física e astronomia, além de combater notícias falsas que circulam nas redes sociais.

O AstroTubers é portanto uma plataforma de divulgação científica, o diferencial está em seus membros, todos astrônomos de diversas universidades do Brasil, alguns deles do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, em São Paulo. Eles criaram o grupo após uma reunião da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), em 2017, para despertar nos jovens o gosto pela ciência. Hoje a entidade certifica o conteúdo do canal, que também tem o selo SVBR, Science Vlogs Brasil, que atesta a qualidade da divulgação científica no Youtube.

“O projeto iniciou com mais de 40 membros. Atualmente somos pouco mais de dez, bastante ativos no canal”, conta Marcelo Rubinho, doutorando do IAG e membro do AstroTubers. Segundo ele, as inspirações para a criação dos vídeos estão nos interesses de cada participante, além das suas áreas de pesquisa. 

Rubinho, por exemplo, encontra inspiração em quase tudo, já que para ele a física e a astronomia estão em muitos lugares. Não à toa, ele já produziu sobre a astronomia envolvida no filme de animação Mulan, da Disney; sobre frases incorretas atribuídas à astronomia; paradoxos da ciência e malefícios causados por muitos satélites no espaço.

Marcelo Rubinho, doutorando do IAG e membro do AstroTubers – Foto: Arquivo pessoal

Para poder produzir um vídeo para os Astrotubers, o roteiro precisa ser aprovado por uma comissão de revisão, composta por membros do próprio canal. Quando aprovada, a produção é encaminhada para a edição, que passa mais uma vez por revisão, antes de ser publicada. “Por mais que sejamos astrônomos, a gente sempre acaba errando, então sempre precisamos das correções científicas dos nossos pares”, explica Rubinho.

Mirian Castejon, doutoranda de astronomia no IAG, é outra integrante do Astrotubers. As produções da pesquisadora estão relacionadas, principalmente, aos conglomerados de galáxia e à técnica de lentes gravitacionais, assuntos estudados por ela.

“Gosto muito da parte histórica, então gravei um vídeo sobre eclipse, em que o efeito é gerado pela lente gravitacional, e sobre o dia da astronomia, que foi criado em homenagem a D. Pedro II”, disse.

Apaixonada por divulgação científica desde o ensino médio, ela decidiu fazer parte do canal por acreditar que as pessoas devem conhecer melhor o mundo científico para entender a necessidade de investimentos na área. “Muitos questionam as missões espaciais, mas na tentativa de mandar pessoas para Marte, por exemplo, ao construir coisas que irão para outros planetas, há uma tecnologia desenvolvida aqui. Pode parecer ficção científica, mas no futuro isso é muito possível”.

Mirian Castejon, doutoranda de astronomia no IAG, integrante do Astrotubers – Foto: Arquivo pessoal

Não só para Mirian, mas também para Rubinho, a importância de abordar a ciência de maneira acessível, como fazem através do canal, está em quebrar barreiras entre a Universidade e a sociedade. “É um exercício que todo pesquisador deve fazer, porque a pesquisa não pode ficar só na Universidade e nem só o produto dela deve ser aproveitado. As pessoas precisam saber que a ciência existe no Brasil”, afirmou Mirian, ressaltando que a falta de conhecimento sobre ciência impede que a sociedade apoie os pesquisadores. 

Rubinho ressalta que essa lacuna existente entre as pessoas e os cientistas, por vezes, acaba sendo preenchida por negacionistas científicos, e isso pode ser perigoso. “Se continuarmos marginalizando a divulgação científica, não só a astronomia, mas também a ciência podem morrer. A divulgação científica não é algo para fazermos só quando dá. No estado atual do Brasil é algo imprescindível”.

Clique aqui para ver o Canal dos Astrotubers.

Fonte: Jornal da USP

Almofadas hospitalares criadas na USP serão produzidas em escala comercial

Em uma parceria entre Escola Politécnica (Poli) da USP, Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e setor privado, pesquisadores desenvolveram almofadas hospitalares capazes de aumentar a sobrevida de pacientes em estado grave de covid-19. Quando pacientes são internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) com insuficiência respiratória ocasionada pela infecção, há a necessidade de posicioná-los de bruços para incrementar as trocas gasosas pulmonares, tornando os coxins hospitalares essenciais para garantir o conforto do paciente intubado, evitar o surgimento de feridas na pele e proporcionar melhor respiração. No entanto, devido à alta demanda, havia a necessidade de aumentar o número de almofadas disponíveis, pois, inicialmente, o objetivo inicial era o de atender os pacientes do próprio Hospital das Clínicas, ideia que acabou se ampliando para abarcar também pacientes de todos os hospitais, tanto dentro quanto fora do País, uma situação que só a produção em escala comercial poderia contemplar.

No âmbito desse esforço, e como retribuição pelo compartilhamento do conhecimento, a FOM irá doar para uso do HC 100 conjuntos completos desses produtos, num total de 400 unidades, a partir inclusive de um contrato assinado entre a USP, o Hospital das Clínicas e a empresa acima mencionada, acordo esse feito pela Agência USP de Inovação. No entanto, surgiu por parte da FOM a necessidade de ajustes no produto, a ser feito sob novo contrato, a partir do qual a verba resultante da comercialização será revertida para o HC e a USP.

Em entrevista ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição, Douglas Gouvêa, do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Escola Politécnica (Poli) da USP, explica que o projeto só foi possível  graças à parceria entre a Universidade e a iniciativa privada. Para desenvolver as almofadas, diversos aspectos precisam ser considerados: “Discutimos quais seriam os pontos críticos da elaboração desse dispositivo que, na verdade, são quatro almofadas: para a cabeça, para o tronco, para o quadril e para as pernas. Cada parte com suas particularidades. Partimos disso sabendo que a cabeça é a parte mais complicada, onde surgem as úlceras que mais requerem atenção.”

A região da cabeça é uma das que mais precisam de atenção quando o paciente intubado está posicionado de bruços, porque é nessa região onde se conectam os tubos de oxigênio, sonda para alimentação e cânulas para medicamentos. A cada quatro horas, a cabeça do paciente precisa ser movimentada para a esquerda ou para a direita, a fim de evitar ferimentos graves e garantir o funcionamento da tubulação, como informa Kelly Cristina Stéfani, do Centro de Inovações Tecnológicas do Instituto Central do Hospital das Clínicas e uma das responsáveis pelo projeto: “Geralmente fica de 12 a 18 horas de bruços e tem que adaptar para que os tubos não sejam desconectados. Tudo isso é feito com muito cuidado em um paciente crítico.”

Segundo Kelly, a chance de sobrevivência do paciente em estado grave é aumentar as trocas gasosas no pulmão, o que é propiciado com o uso dos coxins hospitalares: “A hora que o paciente é adaptado em cima dessas almofadas, há melhora dessa capacidade, ou seja, realmente tira o paciente da insuficiência respiratória grave, levando condições melhores de respiração para que o paciente possa sair da ventilação mecânica”. Além disso, as almofadas evitam úlceras e feridas que podem ser profundas e necessitarem de cirurgia. “Essas simples almofadas proporcionam a sobrevida de pacientes e diminuição de tempo de internação hospitalar. Cada paciente que sai mais rápido dos hospitais, libera um leito de UTI para novos pacientes. Essa rotatividade de leitos é importante para esse momento da pandemia”, finaliza.

Fonte: Jornal da USP

Aplicações de laser e vácuo revertem paralisia facial sem uso de medicamentos

A eficácia do uso de aplicações de laser e vácuo para tratar paralisia facial foi atestada em pesquisa do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP. O tratamento permitiu que os pacientes recuperassem o movimento do rosto e a simetria facial. A técnica pode substituir o uso de medicamentos corticoides, que apresentam contraindicações.

Os resultados da pesquisa são descritos em texto publicado na revista científica Laser Physics Letters, em dezembro do ano passado. “O objetivo principal foi recuperar os movimentos dos músculos da face que foram comprometidos pela paralisia facial”, conta ao Jornal da USP o dentista Vitor Panhóca, pesquisador do Laboratório de Biofotônica do IFSC e primeiro autor do trabalho. “Os experimentos foram realizados em pacientes atendidos pelo consultório odontológico do laboratório.”

Vitor Hugo Panhóca – Foto: IFSC-USP

A técnica inovadora testada na pesquisa foi a endermoterapia, também conhecida como vacuoterapia. “Ela foi usada em conjunto com o laser de baixa potência”, relata o pesquisador. “O método consiste em aplicar o laser e pressão negativa nos tecidos através de ventosas sobre a pele e músculos que apresentam paralisia na face.”

Resultados

No estudo foram feitos testes com dois equipamentos, usados em pacientes diferentes. “Um deles apresentava paralisia facial de Bell (PB), uma paralisia periférica aguda do nervo facial com início abrupto e de origem desconhecida, e o outro tinha como queixa principal a paralisia facial do lado direito, causada devido a trauma após queda, com diagnóstico médico de lesão do nervo facial”, descreve Panhóca. “No primeiro caso, apenas o aparelho de laser de baixa potência foi aplicado. No segundo, outro aparelho, contendo laser e vacuoterapia, chamado comercialmente de Vacumlaser, foi aplicado de maneira simultânea.”

“Os experimentos conseguiram recuperação completa dos tecidos dos pacientes que apresentavam paralisia facial”, ressalta o pesquisador ao Jornal da USP. “Houve restauração da mímica facial após este tratamento, e também melhora da tonicidade muscular e da resposta sensorial da área lesada.”

De acordo com Panhóca, as técnicas podem ser empregadas em pacientes que apresentam paralisia facial e não podem tomar corticoides, que é a droga mais utilizada para tratar o problema.

“Sendo assim, pacientes com paralisia facial impedidos de tomar corticoide porque possuem outras comorbidades como diabete, descompensação cardíaca, hipertensão, acidente vascular cerebral e úlcera péptica podem se beneficiar dos tratamentos com laser e vacuoterapia”, destaca.

“Como toda técnica que utiliza aparelhos inovadores, existe a necessidade de se fazer difusão dela para que mais profissionais tomem contato de seus benefícios”, conclui o pesquisador. 

O texto Treatment of facial nerve palsies with laser and endermotherapy: a report of two cases, escrito por Vitor Hugo Panhóca , Marcelo Saito Nogueira e Vanderlei Salvador Bagnato, foi publicado na forma de Carta ao Editor na revista científica Laser Physics Letters em 7 de dezembro.

Fonte: Jornal da USP

Pesquisa da USP mostra que Vitamina D não reduz tempo de internação em casos graves de COVID

A suplementação com vitamina D não proporciona melhoras significativas em casos de covid-19 moderada ou grave, revela pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), realizada com 240 pacientes internados em São Paulo. Os pesquisadores verificaram que a suplementação não altera o tempo médio de internação e não tem influência para evitar a necessidade do uso ventilação mecânica, de admissão em UTI e na ocorrência de mortes. Os resultados do estudo são descritos em artigo publicado no site do Journal of American Association of Medicine (JAMA) em 17 de fevereiro.

“A vitamina D apresenta uma importante atividade biológica no organismo, com efeito antimicrobiano, anti-inflamatório e imunológico. Neste sentido, a hipótese da pesquisa era se a vitamina D poderia reduzir a replicação do vírus da covid-19 e a resposta inflamatória grave causada pela infecção e melhorar a parte imunológica dos pacientes”, explica ao Jornal da USP a professora Rosa Maria Pereira, da FMUSP, coordenadora do estudo.

Desta maneira, os pesquisadores avaliaram 240 pacientes internados no Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP e no Hospital de Campanha do Ibirapuera entre os dias 2 de junho e 27 de agosto do ano passado. “Inicialmente foram incluídos pacientes que deram entrada no Pronto Socorro do HC, e depois, com a redução do número de internações no local, que foram admitidos no Hospital de Campanha, sempre com diagnóstico de doença moderada ou grave”, relata a professora. “Metade dos pacientes recebeu uma dose única e alta de vitamina D (200.000 UI), na forma de xarope, preparado pela Farmácia do HC, e os demais uma dose de placebo, ou seja, o mesmo xarope, só que sem nenhum efeito.”

Em primeiro lugar, o estudo avaliou se a vitamina D diminui o tempo de internação nos casos de covid-19. “Ao mesmo tempo, foi verificado quantos pacientes morreram, quantos foram admitidos na UTI e qual o número dos que necessitaram de intubação ou ventilação mecânica para manter a oxigenação do sangue”, observa Rosa Maria. A última avaliação dos pacientes aconteceu em 7 de outubro.

De acordo com a professora, a pesquisa não detectou nenhum efeito significativo da suplementação:

“O tempo mediano de internação foi o mesmo entre os pacientes suplementados e os que receberam placebo, sete dias. No primeiro grupo variou entre quatro e dez dias e, no segundo, entre cinco e 13 dias”

“A mortalidade foi de 7,6% com a vitamina D e 5,1% com o placebo. A admissão na UTI registrou 16% com a vitamina e 21% com o placebo e a ventilação e o uso de ventilação mecânica foi de 7% com a suplementação e 14,4% com o placebo”, relata a professora.

Segundo Rosa Maria, a conclusão do estudo é que a vitamina D não proporcionou melhoras relevantes nos pacientes com doença moderada e grave em nenhum dos desfechos analisados. “É importante salientar que o estudo não avaliou o efeito da suplementação em pessoas com formas leves de covid-19 e nem como forma de prevenção”, afirma. “Um novo estudo irá verificar se a concentração basal de vitamina D no sangue tem relação com o desenvolvimento de doença leve ou não.”

artigo Effect of a Single High Dose of Vitamin D3 on Hospital Length of Stay in Patients With Moderate to Severe COVID-19 A Randomized Clinical Trial, foi publicado no site da JAMA em 17 de fevereiro.

O trabalho foi escrito pelos pesquisadores Igor Murai, Alan Fernandes, Lucas Sales, Camila Duran, Carla Silva, André Franco, Marina Macedo Henrique Dalmolin, Janaína Baggio, Guilherme Balbi, Bruna Reis, Valéria Caparbo e a professora Rosa Maria Pereira, da Divisão de Reumatologia do HC, Ana Pinto, Karla Goessler e o professor Bruno Gualano, do Grupo de Pesquisa Aplicada em Fisiologia e Nutrição da FMUSP, e Leila Antonangelo, da Divisão de Patologia Clínica do HC.

A pesquisa teve financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Fonte: Jornal da USP

Pandemia afetou emocionalmente mais as mulheres

A pandemia impactou a saúde mental e aspectos comportamentais dos brasileiros. Um estudo realizado entre maio e junho de 2020 com homens e mulheres de várias regiões do País (26 Estados brasileiros e do Distrito Federal) mostrou que um número grande de pessoas apresentou, durante a pandemia, sintomas de depressão, ansiedade e estresse. Houve também maior consumo de drogas ilícitas, de cigarros, de medicamentos e de alimentos. As mais afetadas emocionalmente foram as mulheres, respondendo por 40,5% de sintomas de depressão, 34,9% de ansiedade e 37,3% de estresse. A pesquisa ouviu três mil voluntários e foi conduzida pela equipe do neuropsicólogo Antônio de Pádua Serafim, do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

“Embora a pesquisa não tenha detalhado as razões que levaram as mulheres a terem maior sofrimento psíquico, a literatura médica vem mostrando que são elas que têm maiores impactos pelas condições sociais em que vivem. A pandemia só acirrou essa situação”, diz o neuropsicólogo. Elas cumprem dupla jornada, acompanham o desenvolvimento escolar dos filhos e, na pandemia, mais pessoas permaneceram dentro de casa, além das preocupações relacionadas ao próprio vírus (iminência de contaminação, necessidade de mudanças de hábitos de higiene, redução de convívio social, familiares adoecidos, etc.). “Todas essas circunstâncias geram estresse e podem ser gatilhos detonadores de doenças mentais”, explica o professor Pádua Serafim. O resultado da pesquisa foi publicado dia 3 de fevereiro na Plos One sob o título Exploratory study on the psychological impacto f covid-19 on  the general Brazilian population.

Além do perfil de mulher multitarefa que concilia trabalhos domésticos e vida profissional, a pesquisa trouxe um achado interessante que revela outra face da questão de gênero. O sofrimento psíquico também atingiu quem morava sozinha e não tinha filhos. Os níveis mais elevados de estresse, depressão e ansiedade foram relatados por mulheres nestas condições, situação que, segundo o estudo, provavelmente estivesse associada a outras variáveis consideradas pela pesquisa e que poderiam estar contribuindo para o adoecimento das entrevistadas: muitas delas estavam desempregadas, tinham histórico de doenças crônicas (25,9%) e relataram ter tido contato com pessoas com diagnóstico de covid-19 (35,2%).

Uma das hipóteses levantadas pelo pesquisador foi que a pandemia tenha deixado esse grupo mais vulnerável a um estado de falta de perspectivas e incertezas quanto ao futuro, o que teria causado mais sensações de desconforto, angústia, ansiedade e desamparo.

Capacidade adaptativa a situações de estresse

Segundo o pesquisador, o estudo exploratório teve o objetivo de investigar a capacidade de enfrentamento das pessoas na pandemia e como elas se ajustariam a situações de pressão. “Em uma pandemia, como estamos vivendo, as pessoas tendem a ficar mais suscetíveis a mudanças físicas, cognitivas, comportamentais e emocionais, o que poderia trazer impacto direto em sua saúde mental”, diz.

A pesquisa abrangeu o período de 22 de maio a 5 de junho de 2020 e usou questionário pela plataforma Google Forms, com informações sociodemográficas (idade, estado civil, quantidade de filhos, escolaridade, número de pessoas que viviam na residência, etc.), e sobre as condições gerais de saúde dos participantes (sobre o contágio da covid-19, morte de parentes ou amigos e o comportamento diante das demandas geradas pela pandemia). A avaliação dos sintomas psicológicos foi feita utilizando uma escala chamada DASS-21, que possibilita verificar prevalências de sintomas de depressão, ansiedade e estresse.

Consumo de álcool ou de, pelo menos, um tipo de droga evidenciado na pesquisa poderão se agravar no pós-pandemia – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Consumo maior de drogas, álcool, cigarros e alimentos

Das 3 mil pessoas que responderam ao questionário, 83% eram mulheres, casadas (50,6%), tinham formação universitária (70,1%) e estavam empregadas (46%). Do grupo geral, incluindo homens e mulheres, 6,4% contraíram o vírus e 22,7% possuíam amigos ou parentes que tinham ido a óbito pela doença. Com relação aos dados comportamentais, 40,8% teve maior consumo de drogas ilícitas, de cigarros, medicamentos e alimentos, e quase metade dos participantes expressou ter tido sintomas de depressão (46,4%), ansiedade (39,7%) e estresse (42,2%).

Na avaliação do neuropsicólogo, o resultado demonstrou que as pessoas não tiveram respostas positivas e adaptativas à pandemia, o que significa que os problemas evidenciados pela pesquisa (condições clínicas) poderão se agravar e persistir no pós-pandemia. Quanto à existência de um grupo mais vulnerável a situações de alta carga de estresse (no caso das mulheres), a recomendação é que haja maior atenção do sistema de saúde mental para esse grupo mais vulnerável durante e após a pandemia.

Estratégias de enfrentamento comportamentais

Segundo o estudo, estratégias de enfrentamento de estresse são recursos utilizados pelas pessoas diante de um problema, podendo eles serem positivos ou negativos. Os resultados apresentados pela pesquisa indicam que os comportamentos adotados pelos participantes na pandemia foram negativos e de fuga-evitação. Passaram a consumir mais alimentos e abusaram de drogas, de tabaco e medicamentos. “Tais estratégias, geralmente, envolvem pessoas que imaginam possíveis soluções para um problema, sem, no entanto, tomar medidas para mudá-lo”, relata.

O professor Pádua Serafim ressalta que esses achados são preliminares, retratam um momento vivido pelos brasileiros e entende que a magnitude dos impactos na saúde mental só será mais bem conhecida com estudos contínuos após o relaxamento total da quarentena. No entanto, diz que pesquisas que abordam sinais comportamentais relacionados à ansiedade, depressão e estresse associados à covid-19 levantam um alarme importante para os serviços públicos de saúde, que precisam estar preparados para o aumento da demanda e urgência no tratamento de novos casos de doença mental, conclui.

Fonte: Jornal da USP

Cartilha virtual desenvolvida na USP Ribeirão ajuda a enfrentar o estresse e o medo durante a pandemia

A pandemia de Covid-19 causa impactos graves na humanidade, deixando sequelas econômicas, físicas e, principalmente, emocionais. Para ajudar pessoas comuns no enfrentamento de crises nervosas e de ansiedade, uma equipe da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP desenvolveu a cartilha eletrônica Promoção da Saúde Mental em Pandemias e Situações de Desastre.

Com uma linguem mais próxima ao leitor, o material foi pensado para incentivar o autoconhecimento, o reconhecimento das próprias emoções e as das pessoas próximas, além da busca por ajuda profissional, caso necessário. Com textos simples e ilustrações, a cartilha oferece ferramentas práticas para auxiliar as pessoas a lidar melhor com o estresse e o medo, principalmente em períodos marcados por desastres e pandemia. O objetivo é amenizar sofrimentos e os impactos negativos que podem ter repercussões a curto, médio e longo prazo.

As ferramentas servem tanto aos que se sentem afetados psicologicamente quanto para orientar primeiros socorros a pessoas próximas necessitadas de apoio. Como um manual, a cartilha indica maneiras de reconhecer sentimentos negativos e necessidades de um indivíduo, de incentivá-lo a falar sobre o que sente e de motivar a procura de um profissional psiquiátrico.

Cada capítulo apresenta uma ferramenta diferente, abordando resiliência, autoconhecimento, cultivo de emoções positivas e resolução de problemas. No conjunto, “a cartilha ajuda o leitor no processo de recuperação de sua saúde mental”, afirmou a professora da EERP Kelly Graziani Giacchero Vedana, responsável pelo desenvolvimento do livro eletrônico, em entrevista ao Jornal da USP em Ribeirão.

A professora Kelly também conta que, após poucos meses do início da pandemia, percebeu a necessidade da população de materiais que servissem de auxílio no enfrentamento de crises. Como sabia da existência de manuais e cartilhas com o mesmo intuito, decidiu buscar algo com uma linguagem mais próxima do leitor, que se comunicasse de maneira mais informal e íntima. “Nós queríamos trazer uma contribuição diferente”, afirma Kelly, dizendo que o material deveria passar uma sensação de leveza e apresentar “ferramentas que assistissem o leitor a lidar com algumas situações de maneira melhor durante o período de quarentena”. 

Ajuda profissional é necessária

Apesar da cartilha ser apresentada como auxílio para autopercepção de emoções, com recomendações sobre o tratamento da saúde mental, seu objetivo não é substituir a ajuda profissional, “ela complementa e facilita a compreensão sobre saúde mental”, acrescenta a professora. Ao final do material, o leitor encontra números de telefone que podem ser úteis durante o tratamento.

Para promover a cartilha, a EERP vem realizando oficinas e palestras virtuais que apresentam algumas das estratégias contidas no material para os profissionais e para o público. Essas informações também podem ser encontradas na página do Facebook do Centro de Educação em Prevenção e Posvenção do Suicídio (CEPS).

Fonte: REVIDE

Estufa com calor seco é mais eficaz para descontaminar máscaras cirúrgicas, mostra estudo realizado no HC

O uso de estufa com calor seco é o método de descontaminação mais eficaz para inativar o vírus da covid-19 em máscaras cirúrgicas e respiradores (máscaras N95) usados por profissionais de saúde. O resultado foi obtido em pesquisa realizada no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP durante a pandemia. A estufa, além de manter a capacidade de filtração dos equipamentos de proteção, permite que sejam reaproveitados com segurança.

As conclusões do trabalho estão em artigo publicado em dezembro no International Journal of Infectious Diseases. “Na primeira fase do estudo, realizada em laboratório, diferentes métodos de descontaminação de máscaras foram utilizados e parâmetros como permeabilidade e filtragem das máscaras foram avaliados”, relatam a pesquisadora Marina Farrel Côrtes e a professora Silvia Figueiredo Costa, do Instituto de Medicina Tropical (IMT) e da FMUSP, que integraram o grupo que realizou o trabalho. “Na fase de ‘vida real’, feita no HC, a presença do vírus sars-cov-2 foi avaliada por meio do teste de RT-PCR antes e após a descontaminação.”

Máscara cirúrgica submetida a ciclos de descontaminação em estufa; apesar da diminuição gradual da resistência, ela não apresentou diferenças práticas após cinco ciclos; capacidade de filtração permaneceu acima de 92% após quatro ciclos de descontaminação com calor seco – Foto: Cedida pelas pesquisadoras

A pesquisa avaliou máscaras cirúrgicas e respiradores (máscara N95) de cinco fabricantes, além dos equipamentos usados em quatro métodos de descontaminação: calor seco (estufa), autoclavagem (autoclave), termodesinfecção (máquina de secagem térmica) e peróxido de hidrogênio (máquina de vapor). “Fragmentos das máscaras positivas por RT-PCR foram submetidas ao cultivo do vírus com o intuito de avaliar se o vírus permanecia viável e poderia ser transmitido”, apontam as pesquisadoras.

Além da inspeção visual para identificar sinais de deterioração, funcionalidade do elástico e clipe nasal, as máscaras foram avaliadas quanto a permeabilidade ao ar (passagem de ar sob pressão), resistência ao estouro (rompimento) e respirabilidade. “Nesse aspecto, foi verificada a diferença de pressão para o ar passar do lado de dentro para fora. Quanto menor essa diferença de pressão, menos resistência o material oferece para passagem do ar, ou seja, mais respirável é o material”, afirmam Marina e Silvia. “Também foi medida a eficiência da filtragem de partículas e capacidade de retenção de DNA, ou seja, o quanto a máscara consegue impedir a passagem de moléculas de DNA.”

Respirador após os ciclos de descontaminação; nenhum dos respiradores submetidos à cultura viral apresentou positividade e capacidade de filtragem de partículas permaneceu acima de 96% após dois ciclos de descontaminação na estufa e com vapor de peróxido de hidrogênio – Foto: Cedida pelas pesquisadoras

Entre as 14 máscaras utilizadas pelos profissionais de saúde durante os plantões, o RNA de sars-cov-2 foi detectado por RT-PCR em duas delas antes da descontaminação, em particular as coletadas na primeira semana da pandemia, quando não havia protetores faciais disponíveis e antes da adoção de medidas de segurança. “Apenas uma máscara permaneceu positiva pela RT-PCR após a descontaminação em estufa, o que não significa que o vírus estava viável, apenas que o material genético permaneceu ali”, destacam as pesquisadoras. “Nenhum dos respiradores submetidos à cultura viral apresentou positividade.”

Descontaminação

Como todas as técnicas de descontaminação apresentaram bom desempenho após um ciclo, foi estudado o efeito de até cinco ciclos com estufa e autoclave, métodos mais comuns em hospitais. “O terceiro ciclo de descontaminação na autoclave afetou significativamente a resistência mecânica das máscaras cirúrgicas e descolou o clipe nasal dos respiradores, portanto não seria um método indicado para mais do que dois ciclos”, observam Marina e Silvia. “Por outro lado, a descontaminação na estufa, apesar da diminuição gradual da resistência ao estouro e diferencial de pressão em máscaras cirúrgicas, não apresentou diferenças práticas após cinco ciclos.”

As máscaras cirúrgicas perderam a capacidade de filtragem de DNA após o décimo ciclo de descontaminação na estufa, enquanto os respiradores mantiveram a capacidade de retenção. “O número de ciclos de descontaminação não afetou a eficiência de filtração de partículas das máscaras”, dizem as pesquisadoras. “A eficiência de filtração de partículas indica que máscaras cirúrgicas permaneceram com capacidade de filtração acima de 92% após os quatro ciclos de descontaminação testados na estufa e os respiradores acima de 96% após, pelo menos, dois ciclos de descontaminação na estufa e com vapor de peróxido de hidrogênio.”

Adicionalmente, 33 profissionais de saúde preencheram um questionário considerando vedação e desempenho de respiração das máscaras antes e após a descontaminação. “O estudo constatou que o mero uso da máscara, isto é, fatores como vestir e retirar, umidade da respiração e fala, já altera sua performance nos testes analisados quando comparada com a máscara nova”, explicam as pesquisadoras. “Porém essa diferença é baixa, menor do que as diferenças encontradas entre as diversas marcas de máscaras e, portanto, sem significado prático.”

A pesquisa é relatada no artigo Descontamination and reuse of surgical masks and respirators during covid-19 pandemic, publicado em 22 de dezembro no International Journal of Infectious Diseases. O trabalho teve a participação de Marina Farrel Côrtes, Evelyn Patricia Sanchez Espinoza, Saidy Liceth Vásconez Noguera, Anna S. Levin, Silvia Figueiredo Costa, do Laboratório de Investigação Médica (LIM- 49-Laboratório de Bacteriologia) e Lucy Santos Villas Boas, Noely Evangelista Ferreira, Tania Regina Tozetto-Mendoza, Maria Cassia Mendes Correa, do Laboratório de Investigação Médica (LIM 52-Laboratório de Virologia), do IMT e do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da FMUSP.

No HC, estiveram envolvidos o Centro Cirúrgico (Aline Alves Silva, Marion Elke Sielfeld Araya de Medeiros) e a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar, Grupo de Controle de Infecção Hospitalar e Comitê da Crise da Pandemia da Covid-19 (Thais Guimaraes, Ana Rubia Guedes, Leila Suemi Harima Letaif, Amanda Cardoso Montal). Também participaram os pesquisadores Fernando Gonçalves Morais, do Instituto de Física (IF), e Vanderley M. John, da Escola Politécnica (Poli) da USP, além de Rayana Santiago de Queiroz, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), e Adriana Coracini Tonacio de Proença, do Hospital São Camilo, em São Paulo.

Fonte: Jornal da USP

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