USP e prefeitura de Ribeirão Preto criam Centro de Referência Paralímpico Brasileiro

Importante na socialização, o esporte pode ajudar a superar obstáculos, limites e traumas. Para pessoas com deficiência, física ou psicológica, o esporte pode representar todos esses benefícios em um único lugar. É o que pretende a cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, ao implantar seu Centro de Referência Paralímpico Brasileiro.

O projeto já está em andamento, com parceria e orientação do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP e da Prefeitura do Campus da USP na cidade. A ideia principal, segundo os responsáveis, é treinar atletas de alto rendimento para fortalecer o desenvolvimento do esporte paralímpico nacional.

“Treinar, dar suporte a atletas de alto nível, promover iniciação esportiva de pessoas com deficiência e formar profissionais do esporte paralímpico estão entre os objetivos do novo centro em Ribeirão Preto”, conta o professor da EEFERP Márcio Pereira Morato. Ele destaca que essa também é uma oportunidade para desenvolver projetos de pesquisa e estágio para os alunos. “A criação desses centros visa a descentralizar as ações e atuações do comitê para atingir o maior número de pessoas com deficiência.”

Ribeirão Preto é considerado um município com forte vocação na área da saúde e com muita força no esporte, motivos pelos quais foi escolhido para receber o projeto. “A cidade, inclusive, tem tudo para se tornar referência no paradesporto com a chegada do Centro de Referência Paralímpico”, afirma André Trindade, secretário de Esportes de Ribeirão Preto, que vê no projeto oportunidade de inclusão de pessoas com alguma deficiência. “O esporte abre o horizonte para uma vida de saúde, competição e novos desafios”, destaca.

O professor Márcio Morato, à esquerda, durante a assinatura do convênio junto com o secretário de Esportes de Ribeirão Preto, André Trindade – Foto : Leandro Trigueiro/EEFERP-USP

Embora a ideia principal seja treinar e formar atletas para a disputa de competições, o centro vai oferecer aulas abertas a qualquer pessoa, independente de idade e da deficiência, estando sempre disponível “para selecionar praticantes e competidores”, afirma Trindade.

Expectativa alta para o início do projeto

A expectativa de participar do projeto é grande entre os idealizadores e alunos da EEFERP, já que as atividades devem atender, logo nos primeiros anos, cerca de 80 crianças e adolescentes nas modalidades de natação e atletismo. Mas, segundo Morato, vôlei, badminton, taekwondo e judô serão incluídas conforme o projeto avance.

O professor conta que a EEFERP já sonhava com um projeto parecido, que esbarrou em questões de logísticas e não chegou a ser colocado em prática. “Na época, levamos o projeto para instituições, como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e a Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto (Adevirp), onde foram desenvolvidas algumas modalidades esportivas, atividades interrompidas pela pandemia.”

Centro quer ser referência em formação de atletas e profissionais do esporte paralímpico – Fotos: Tomaz Silva / Agência Brasil e Min. do Esporte

Agora, com parceria sólida entre as entidades, a ideia é que o projeto não tenha problemas de estrutura ou logística. Enquanto o Comitê Paralímpico Brasileiro e a Prefeitura Municipal arcam com os custos do projeto, a EEFERP e a Prefeitura do Campus da USP em Ribeirão Preto se responsabilizam por toda a estrutura do centro.

As atividades serão desenvolvidas na EEFERP e em dependências esportivas da Prefeitura Municipal. “Ribeirão Preto terá mais atletas representando o município e trazendo as vitórias e medalhas que a cidade merece”, comemora Trindade. 

Fonte: Jornal da USP, por Robert Siqueira

Aplicativo pode auxiliar idosos e pessoas com deficiência durante emergências

No Brasil, segundo dados do IBGE, quase 30 milhões de pessoas têm mais de 60 anos. Cerca de 16 milhões conta com algum tipo de deficiência visual ou auditiva, e 4,2 milhões dessas pessoas moram sozinhas. E isso pode dificultar o acionamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em caso de emergência. Para atender essa parcela da população, o enfermeiro Diego Santiago Montandon, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, desenvolveu a Plataforma Eletrônica de Socorro nas Urgências (e-SU).

O aplicativo é adaptado para acionar socorro pré-hospitalar de forma mais rápida e prática. A ideia do projeto surgiu da própria experiência de Montandon como enfermeiro, que ao perceber a dificuldade resolveu investigar a real situação dessas pessoas. Durante seu mestrado na EERP, ele avaliou dados de geoprocessamento de pedidos de socorro realizados por pessoas com mais de  60 anos e com deficiência em Ribeirão Preto. “Foi quando verifiquei que elas também não conseguiam ser tão bem atendidas”, conta o pesquisador. 

Montandon decidiu, no doutorado, desenvolver um aplicativo para celular que desse autonomia a esse público durante situações de emergências. O e-SU possibilita chamar o Samu, enviando a exata localização do celular. Segundo o pesquisador, o app também envia ao  serviço de urgência fotos, vídeos, mensagens de texto e oferece comunicação audiovisual comum, permitindo um atendimento mais eficaz e adequado à condição do paciente.

Telas do aplicativo de emergência médica – Foto: Reprodução/EERP

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Diego Montandon – Foto: Arquivo pessoal

Para além do pedido de socorro, garante Montandon, ao ser instalado, o e-SU tem acesso aos locais que o paciente mais frequenta, da localização de seu dispositivo celular, além da idade, se mora sozinho e se é portador de deficiência auditiva ou visual. O pesquisador afirma que “com o decorrer do tempo, o aplicativo vai se adaptando conforme as necessidades da pessoa e, se ela desejar, ela própria pode atualizar o sistema.”

O aplicativo e-SU já foi aprovado em testes com peritos, empresários da área de desenvolvimento de softwares para telefonia móvel e por 21 pessoas da população-alvo. Atualmente, encontra-se em fase de registro na Agência USP de Inovação. “Depois dessa etapa, serão necessários novos recursos financeiros para desenvolver o protótipo de alta fidelidade, o qual terá de ser avaliado novamente antes de ser lançado ao público.”

O desenvolvimento do aplicativo foi feito durante o doutorado de Montandon Construção e avaliação de um protótipo de software aplicativo de telefonia móvel para acessibilidade nas solicitações de socorro pré-hospitalar, com orientação da professora Simone de Godoy Costa, no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Fundamental da EERP, defendido em dezembro de 2020.

Fonte: Jornal da USP

Guia de Atividade Física para a População Brasileira

Na última quarta-feira (7), num evento on-line no canal do YouTube da Sociedade Brasileira de Atividade Física (SBAFS), ocorreu a divulgação do Guia de Atividade Física para a População Brasileira. “O guia é extremamente importante para embasar políticas e ações públicas de promoção de atividade física e incentivar a população a se exercitar, para que todos sejam ativos fisicamente no dia a dia e, portanto, mais saudáveis”, afirma Alex Florindo, pesquisador da USP e um dos cerca de 70 cientistas que desenvolveram o guia. A publicação é coordenada pelo epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e foi financiada pelo Ministério da Saúde, que lançou o documento há uma semana, em evento sem a presença dos pesquisadores.

“Nós sabemos que hoje a atividade física é uma das principais variáveis de promoção da saúde, qualidade de vida e prevenção de doenças”, afirma Florindo. A prática regular dessas atividades está relacionada ao combate de doenças como câncer, diabete e obesidade, o que contribui para a saúde da população. Segundo Florindo, estudos  epidemiológicos recentes descrevem o efeito dessa prática na prevenção de casos graves de covid-19, afirmando a importância da área na saúde pública. Isso envolve orientações em nível governamental e populacional para incentivar a população à prática de atividades físicas, embasamento de políticas públicas para essa promoção e orientação aos profissionais da área. 

De acordo com Florindo, em relação a projetos na área, esse pode ser considerado um dos maiores no mundo, devido à diversidade e quantidade de pesquisadores de todo o Brasil envolvidos. A comissão científica contou com seis especialistas, representantes de cada região do Brasil, além de técnicos do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e outros profissionais experientes na área, que utilizaram as evidências científicas mais atuais para a construção do documento de 50 páginas, de forma simples, direta e atrativa ao público. 

Ministério da Saúde lançou o guia há uma semana – Foto: Divulgação

Os pesquisadores desenvolveram durante dois anos trabalhos voltados para as melhores orientações físicas em cada ciclo da vida; crianças, até 5 anos; jovens, entre 6 e 17 anos; adultos, 18 anos ou mais; e idosos, 60 anos ou mais. Entre as categorias que compõem os oito capítulos do documento que serão discutidos na apresentação, também foram abordadas a educação física escolar e a atividade física para gestantes e para pessoas portadoras de deficiência. Para crianças no primeiro ano de vida, a recomendação é que fiquem pelo menos 1 hora por dia de bruços. Já para as mais crescidas, de 1 a 5 anos, a recomendação é que sejam praticadas pelo menos 3 horas por dia de atividade física. Para jovens, a recomendação é de pelo menos 1 hora por dia de atividade física. Os adultos, idosos e gestantes receberam a recomendação de pelo menos 150 minutos de atividade por semana. As recomendações de cada faixa etária também se aplicam para pessoas com deficiência.

 A vida ativa e o sedentarismo são multifatoriais, isto é, envolvem uma gama de fatores, que são abordados no documento. Florindo explica que existem fatores mais próximos às pessoas, como autoeficácia, apoio social,  cultural, e fatores externos, como ambiental, social e político. “O  guia visa a trabalhar com essa amplitude de questões que podem estar relacionadas com a promoção da atividade física, para que contribua para a saúde da população”, completa. 

Segundo informações do evento, o guia tem enorme potencial de orientar políticas públicas, incentivar a população em geral e contribuir na atuação dos diversos profissionais da área da saúde na próxima década, ao passo que traz recomendações para toda a população brasileira de como adotar um estilo de vida ativo, além de apresentar sugestões para gestores públicos sobre como incorporar a promoção de atividade física como uma política eficaz de promoção da saúde do curto ao longo prazo. 

O Ministério da Saúde distribuirá 74 mil exemplares do guia para Secretarias Estaduais e Municipais de saúde e enviará o documento para profissionais e usuários do Programa Academia da Saúde, Centros de Reabilitação com foco na atenção às pessoas com deficiência visual, ministérios e órgãos governamentais. Em formato digital, o guia está disponível em portuguêsinglêsespanholaudiobook — democratizando o acesso a estrangeiros e refugiados que residem no Brasil que usam o Sistema Único de Saúde (SUS) — e em versão para gestores e profissionais da saúde

Acesse o Guia completo em PDF clicando aqui.

Fonte: Jornal da USP

Transplante de células-tronco “reseta” sistema imunológico e ajuda a tratar esclerose sistêmica

O transplante autólogo de células-tronco hematopoiéticas (AHSCT), indicado para casos graves de esclerose sistêmica (ES), reconstitui completamente o sistema imunológico e restaura a capacidade supressora dos linfócitos “B”, células de defesa do organismo. A avaliação é baseada em dados clínicos e imunológicos de 22 pacientes transplantados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP. Os resultados contribuem para o entendimento da ES e a remissão da doença, a longo prazo. Do ponto de vista clínico, houve melhora nas funções pulmonares, nos movimentos articulares e diminuição do enrijecimento cutâneo provocado pelo excesso de produção de colágeno.

“O transplante autólogo de células-tronco hematopoiéticas [aquelas que têm a capacidade de se autorrenovar] consiste na coleta de células-tronco do próprio paciente e infundidas [devolvidas] nele após a administração de altas doses de quimioterapia e é recomendado apenas para pacientes que não respondem mais ao tratamento convencional com imunossupressores, porque além de ser de alto custo é muito invasivo”, explica ao Jornal da USP a médica reumatologista Maria Carolina de Oliveira Rodrigues, pesquisadora do Centro de Terapia Celular (CTC) e professora da Divisão de Imunologia Clínica, do Departamento de Clínica Médica da FMRP.

“O procedimento, além de promover renovação celular dos linfócitos ‘T’, que já era de conhecimento científico de pesquisadores da equipe, restaurou profundamente a capacidade dos linfócitos ‘B’ ”, relata Maria Carolina.

O que é esclerose sistêmica?

Segundo a pesquisadora, a esclerose sistêmica (ES) é uma doença autoimune, sem causa conhecida e caracterizada por alterações vasculares e fibrose cutânea e visceral progressiva, que envolvem pulmões, intestino, coração e rins. A patologia, que se manifesta principalmente em mulheres entre os 30 e 50 anos, provoca produção exagerada de colágeno que leva a mudanças na textura e na aparência da pele, que fica enrijecida. À medida que a doença vai evoluindo, outros órgãos são afetados e surgem dores articulares, dificuldades para andar, comer, falar e falta de ar, chegando ao óbito.

O assunto foi descrito no artigo Autologous hematopoietic stem cell transplantation restores the suppressive capacity of regulatory B cells in systemic sclerosis patients Autologous hematopoietic stem cell transplantation restores the suppressive capacity of regulatory B cells in systemic sclerosis patients, publicado pelo Rheumatology, periódico oficial da British Society for Rheumatology da Oxford University Press, em março de 2021.

“Havia especulações de que o transplante pudesse ser uma imunossupressão mais forte e que duraria por mais tempo, mas o que foi verificado nessa pesquisa foi mais do que isso. O transplante alterou o sistema imunológico de uma maneira tão profunda, renovando tanto as células ‘T’ quanto as ‘B’ , que conseguiu ‘resetar’ o sistema imune como se o paciente voltasse a ser um bebê”, explica a reumatologista.

O transplante AHSCT não é novidade como tratamento alternativo para pacientes com esclerose sistêmica grave e progressiva, conta a pesquisadora. O procedimento tem sido realizado no HCFMRP desde 2004, com respostas clínicas muito boas, relata a médica. “Porém, havia uma lacuna que precisava ser investigada, que era saber quais eram os mecanismos imunológicos que estavam envolvidos nessa resposta terapêutica de transplante”, diz.

“Havia especulações de que o transplante pudesse ser uma imunossupressão mais forte e que duraria por mais tempo, mas o que foi verificado nessa pesquisa foi mais do que isso. O transplante alterou o sistema imunológico de uma maneira tão profunda, renovando tanto as células ‘T’ quanto as ‘B’ , que conseguiu ‘resetar’ o sistema imune como se o paciente voltasse a ser um bebê”, explica a reumatologista.

Comparação de resultados imunológicos e clínicos dos pacientes​

A pesquisa que demonstrou renovação celular dos linfócitos “B” associada a desfechos clínicos favoráveis é de autoria do pesquisador João Rodrigues Lima Junior (primeiro autor do artigo e co-orientando de doutorado da professora Maria Carolina), que atualmente está fazendo pós-doc em La Jolla Institute for Immunology, Center for Autoimmunity and Inflammation, nos Estados Unidos. A parte laboratorial esteve sob orientação da professora Kelen Cristina Ribeiro Malmegrim de Farias, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, e a coordenação das avaliações clínicas esteve sob responsabilidade da professora Maria Carolina.

Imagens da amplitude da boca e dos movimentos das mãos de pacientes transplantados (antes e  depois). A esclerose sistêmica causa, entre outros sintomas, a fibrose cutânea provocada pela produção exagerada de colágeno – Fotos: Maria Carolina de Oliveira Rodrigues

Os pacientes foram monitorados antes do transplante e após o procedimento (30, 60, 120, 180 e 360 dias) para avaliar a resposta clínica (espessamento da pele, função pulmonar, cardíaca, renal e trato gastrointestinal), e retirada de sangue para quantificação e identificação de linfócitos (células) B e T e anticorpos.

Maria Carolina de Oliveira Rodrigues – Foto: Arquivo pessoal

Mais anos de vida

A professora Maria Carolina conta que, de uma forma em geral, os pacientes que apresentaram uma melhor renovação dos linfócitos “B” foram exatamente os que também tiveram melhor resposta clínica e menos marcadores de inflamação sanguínea. A médica, que há mais de dez anos vem acompanhando pacientes transplantados no HC, diz que, após o procedimento, eles passaram a ter a doença mais bem controlada e ganharam mais tempo e melhora de qualidade de vida.

“Oito anos após o transplante, por exemplo, 81% dos pacientes encontravam-se vivos e 70,5%, com a doença controlada”, relata. Houve melhora também na função pulmonar, no espessamento da pele e nos movimentos articulares das mãos, braços e pernas, de modo que eles passaram a andar distâncias maiores, diz a médica. Os resultados da parte clínica foram descritos no artigo Hematopoietc stem cell transplantation for systemic sclerosis: Brazilian experience .

João Rodrigues Lima Júnior – Foto: Arquivo pessoal

Restauração dos linfócitos “B”

Do ponto de vista imunológico, “o que a pesquisa comprovou foi que o transplante restaurou a capacidade dos linfócitos ‘B’ que, em circunstâncias saudáveis, cumpre papel importante no sistema imunológico, diz a pesquisadora. Sua principal função é a produção de anticorpos contra antígenos, mas que, por algum motivo, quando a pessoa é afetada por doenças autoimunes, como a esclerose sistêmica, as células ‘B’ se transformam em ‘células do mal’ e começam a agredir os tecidos e os órgãos dos pacientes. Com o transplante, renovam-se essas células, que voltam a funcionar normalmente”, explica.

Kelen Cristina Ribeiro Malmegrim – Foto: Arquivo Pessoal

Segundo a pesquisadora, ao saber como o transplante atua de fato no sistema imunológico dos pacientes, em breve será possível usar os linfócitos “B” como marcadores para avaliar a evolução da doença e também utilizar fármacos direcionados na hora do transplante para que os pacientes tenham desfechos melhores.

Fonte: Jornal da USP

É hora de escolher qual vacina contra a covid-19 devemos tomar?

À espera de uma possível terceira onda, o Brasil vacina em ritmo lento. A indisponibilidade de insumos para fabricação dos imunizantes e a falta de estratégias em nível governamental para garantir o comparecimento dos cidadãos aos postos de saúde se refletem em números. Até o dia 10 de junho, quando finalizamos esta reportagem, cerca de 480 mil pessoas haviam perdido a vida para a covid-19, e os casos confirmados passavam de 17 milhões, segundo dados do Ministério da Saúde. Por outro lado, 51.846.929 de pessoas haviam recebido a primeira dose — o equivalente a 24,48% da população brasileira, e menos da metade (23.418.325) garantiram a segunda.

Nas últimas semanas, a aplicação do imunizante foi feita em menor velocidade, segundo painel do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP. Mesmo com essa demora na fila, ainda há pessoas que deixam de se vacinar por terem preferência entre as três vacinas disponibilizadas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde. 

Entretanto, pesquisadores apontam que comparar as taxas de eficácia de cada imunizante não faz sentido, devido aos contextos particulares de obtenção desses dados. O mais racional, portanto, é apoiar-se nos resultados coletivos de uma vacinação em massa, que são positivos no caso dos três imunizantes aplicados. Efeitos colaterais também não devem ser levados em conta  — salvo contra indicações, pois reações graves são raríssimas e variáveis em cada indivíduo.

“Nós temos que tomar a vacina que está disponível”, garante Kalil. “A eficácia só é importante em nível individual quando uma imunização é feita de forma preventiva ou com poucos vírus circulando.”

Jorge Kalil – Foto: Agência Brasil

A “queridinha” da vez é a vacina produzida pela Pfizer/BioNTech e as razões vão desde os efeitos colaterais mais comuns reportados por quem tomou a vacina de Oxford/Astrazeneca até o receio quanto à efetividade da Coronavac em reduzir número de casos e hospitalizações. Porém, de acordo com Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (Incor) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), na qual atua como e professor de Imunologia Clínica e Alergia, o cenário atual de vacinação no País não permite que a população eleja um imunizante de preferência: “Nós temos que tomar a vacina que está disponível”, garante Kalil. “A eficácia só é importante em nível individual quando uma imunização é feita de forma preventiva ou com poucos vírus circulando.”

Letícia Kawano – Foto: Arquivo pessoal via Twitter

Letícia Kawano, médica pneumologista, pesquisadora do Instituto de Pesquisa do Hospital do Coração (HCor) e membro do grupo de desenvolvimento de diretrizes em tratamentos para covid-19 da Organização Mundial da Saúde (OMS), alerta que o mais importante, neste momento, é alcançar a imunidade coletiva, ou “de rebanho”. Essa forma de imunização acontece quando atinge-se uma porção de imunizados suficiente, numa população, para proteger os demais, de forma indireta, ao barrar a transmissão viral. “É isso que de fato vai controlar a doença, não a vacinação individual”, garante. “Se as pessoas ficam adiando sua vacinação porque querem receber essa ou aquela vacina, isso posterga a proteção de toda a população.”

Letícia usa como exemplo o projeto S, realizado pelo Instituto Butantan em Serrana, cidade que integra a região metropolitana de Ribeirão Preto. Lançado em fevereiro deste ano, teve como objetivo aplicar a Coronavac nos moradores e, posteriormente, analisar o impacto da imunização na redução de casos de covid-19 e no controle da pandemia. Os resultados, divulgados em 31 de maio, mostraram que 27.160 pessoas tomaram as duas doses, ou seja, 95% da população. Houve uma redução de 95% dos óbitos, de 86% das hospitalizações e de 80% dos casos sintomáticos da doença.

Outro dado mostrou que, quando 75% da população estava imunizada, a proteção era estendida aos não vacinados. “Isso mostra que, mesmo quando se utiliza uma vacina que é boa (ou suficiente) em larga escala, se controla a doença”, pontua a Letícia. 

Em nível internacional, o pesquisador Jorge Kalil exemplifica a importância da vacinação em massa com países que aplicam imunizantes também usados no Brasil. Em Israel, as medidas de restrição para contenção da transmissão viral foram retiradas após o sucesso do programa de vacinação que contou, em sua maior parte, com a vacina da Pfizer. No país, mais da metade da população está completamente imunizada e os casos graves da doença quase eliminados. Já na Escócia, que contou também com as doses da Astrazeneca, o cenário é semelhante. “ Mesmo sem 100% de eficácia, as vacinas aplicadas no Brasil fornecem grande proteção, principalmente quando usadas em grande porção da população”, completa.

Imunidade Coletiva

Imunizantes aprovados para uso no Brasil

As três vacinas disponíveis para os brasileiros são a Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac; a AstraZeneca/Oxford, fabricada em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); e a Pfizer/BioNTech, que já possui o registro definitivo para uso no Brasil, concedido pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Todas elas foram testadas no País e se mostraram efetivas em reduzir hospitalizações, óbitos e internações e a eficácia ficou entre 50,38 a 95%.

Apesar dessa variação, todos os especialistas ouvidos pelo Jornal da USP garantem que é preciso cuidado ao comparar os estudos clínicos. “A Coronavac, por exemplo, foi aplicada no Brasil em 12.508 profissionais de saúde e a eficácia geral foi de 50,38%, número já esperado para vacinas de vírus inativo, que apresenta taxas inferiores às técnicas mais modernas — como de RNA mensageiro”, afirma Leonardo Costa, especialista em práticas baseadas em evidências científicas e comunicador em saúde. 

“O mais importante é que todo mundo vá se vacinar o mais rápido possível para conseguirmos controlar a pandemia. E que mais vacinas sejam disponibilizadas em larga escala”, ressalta Letícia Kawano

Costa continua: “A equiparação só pode ser feita utilizando os mesmos critérios de público e de condições, diferente do cenário no qual as vacinas são comumente comparadas ”, alerta. O estudo clínico da Coronavac, por exemplo, contou com quase sete vezes mais participantes do que o estudo da Pfizer, ambos feitos no Brasil, além de ter abrangido profissionais da saúde, que estão mais expostos ao vírus. Vale destacar que pesquisas em diferentes contextos observam diferentes resultados para o mesmo imunizante.

A Indonésia rastreou 128.290 profissionais de saúde na capital Jacarta, após a aplicação da Coronavac, realizada entre janeiro e março deste ano. Os resultados apontaram para uma proteção de 98% das mortes e 96% de hospitalização sete dias após a segunda dose. Além disso, 94% dos trabalhadores foram protegidos contra infecções sintomáticas.

Recentemente, a OMS aprovou a vacina produzida pelo Instituto Butantan para uso emergencial. “Havia muitas dúvidas sobre eficácia, mas a aprovação traz mais legitimidade para a vacina”, afirma Letícia. “O mais importante é que todo mundo vá se vacinar o mais rápido possível para conseguirmos controlar a pandemia. E que mais vacinas sejam disponibilizadas em larga escala”, ressalta. 

Vacinas para Covid-19 disponíveis no Brasil

CoronaVac

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A primeira a ser aprovada para uso emergencial no Brasil foi a Coronavac, em meados de janeiro de 2021. Produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, é uma vacina de vírus inativado que, quando aplicada, estimula a produção dos anticorpos necessários para combater a doença.

Astrazeneca

vacina-astrazeneca

Já a AstraZeneca/Oxford (ChAdOx1 nCoV-19 ou AZD122), produzida em parceria com a Fiocruz, um vetor viral (um adenovírus, conhecido por causar gripe em chimpanzés, não em humanos), que carrega parte do material genético do sars-cov-2. Dentro do organismo, estimula a produção de anticorpos e desencadeia a resposta imune celular, ativando outro tipo de célula, chamada de linfócito T citotóxico.

Pfizer

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A Pfizer desenvolveu uma vacina à base de RNA mensageiro (mRNA) para combater o vírus sars-cov-2. A sequência de RNA do vírus é introduzida nas células do organismo para que elas produzam uma proteína específica do vírus. Quando processada, o sistema imunológico produz anticorpos e resposta imune celular, com a ativação dos linfócitos T citotóxicos.

Fonte: Fiocruz e NEJM

Efeitos colaterais e contraindicações da vacinação

Os efeitos colaterais, que geralmente são notados até as primeiras 48 horas após a aplicação, são obstáculos para quem ainda tem dúvidas quanto à segurança da vacinação. Sintomas leves e moderados como inchaço no local da aplicação, fadiga, febre baixa e dores musculares e de cabeça são comumente relatados por quem se vacina contra a covid-19, mas, segundo a OMS, além de esperados, fazem parte do processo de imunização inerente a qualquer vacina. 

No Calendário de Vacinação instituído pelo Ministério da Saúde, as vacinas começam a ser aplicadas logo após o nascimento. Muitas delas causam diferentes efeitos adversos. A pentavalente protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e Haemophilus influenzae tipo b, é usada há anos no PNI para prevenção das respectivas doenças.  A “penta”, como também é chamada, é conhecida por causar sintomas leves e moderados. “É um fármaco aplicado no segundo mês de vida e deixa a criança bem incomodada”, afirma Katia Valverde, pediatra, alergista e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Apesar de variáveis entre os indivíduos, os efeitos adversos são esperados. “O que estamos observando com a vacinação contra a covid não tem nada de diferente com o que acontece com os imunizantes do nosso PNI”, completa.

Contenção viral

CoronaVac

Na cidade de Serrana, interior de São Paulo, com 75% da população vacinada, os casos sintomáticos se reduziram em 80%, hospitalizações em 86% e mortes em 95%

Astrazeneca

Na Escócia estudo mostrou que, quatro semanas após aplicação da primeira dose das vacinas da AstraZeneca e da Pfizer contra o coronavírus, o risco de hospitalização caiu 94% e 85%, respectivamente.
5,4 milhões de escoceses receberam a primeira dose.

Pfizer

Em Israel, as medidas de restrição para contenção da transmissão viral foram retiradas, após o controle da pandemia com mais da metade da população vacinada

“Das 20 milhões de pessoas que tomaram a vacina da AstraZeneca no Reino Unido e na União Europeia em 16 de março, 25 apresentaram coágulos nos vasos sanguíneos e nos que drenam o sangue do cérebro, mas se você contrair covid-19, a sua chance de morrer é de 1 em 100”, explica Leonardo Costa. “Se alguma vez na vida você fumou ou tomou pílula anticoncepcional, você já ‘brincou’ com esse risco.”

Mesmo assim, a Astrazeneca ficou estigmatizada por causar sintomas mais fortes, algo próximo à sensação de ressaca, no dia após a primeira dose, o que faz com que muitas pessoas aguardem a chegada de outro imunizante na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. Além disso, estudos europeus relataram que a vacina causou coágulos sanguíneos em algumas pessoas com contagens baixas de plaquetas. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) continua indicando a vacina, argumentando que os benefícios gerais superam os riscos. “Das 20 milhões de pessoas que tomaram a vacina da AstraZeneca no Reino Unido e na União Europeia em 16 de março, 25 apresentaram coágulos nos vasos sanguíneos e nos que drenam o sangue do cérebro, mas se você contrair covid-19, a sua chance de morrer é de 1 em 100”, explica Leonardo Costa. “Se alguma vez na vida você fumou ou tomou pílula anticoncepcional, você já ‘brincou’ com esse risco”.

Letícia defende que não se deve escolher entre as vacinas, muito menos utilizar efeitos adversos como critério. “A atenção deve ser em casos de contra indicações”, afirma. Assim como alguns estudos e casos relacionam a aplicação da Astrazeneca com o raríssimo desenvolvimento ou agravamento do quadro de trombose em mulheres jovens, a vacina Pfizer também foi ligada em casos pontuais de aumento do risco de reações anafiláticas por pessoas com histórico de alergia a medicamentos, picada de inseto e a alimentos. A especialista ressalta que qualquer dúvida deve ser sanada com seu médico. “Em um país onde falta vacina, esse não pode ser impedimento para se prevenir contra a covid-19, que está matando em grandes proporções. As pessoas devem se vacinar, porque, quando colocamos na balança, o benefício é gigantesco”, afirma.

Fonte: Jornal da USP

Recuperados de covid-19 não apresentam sequelas na visão, aponta estudo

Recuperar-se da fase aguda da covid-19 é motivo de comemoração, mas pesquisas apontam que a batalha não acaba mesmo após a alta. Os recuperados ainda correm o risco de terem sintomas persistentes como falta de ar, dor de cabeça, perda da força muscular e até fadiga. A ciência ainda questiona possíveis sequelas oftalmológicas, mas pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP adiantam que, ao analisar exames de 64 pacientes recuperados de covid-19, não encontraram sequelas nos olhos.

O estudo Ocular findings among patients surviving COVID-19 acaba de ser publicado pela revista Nature Scientific Reports, e traz a  avaliação oftalmológica completa de pacientes recuperados cerca de 80 dias após os primeiros sintomas. Todos os pacientes foram acompanhados pelos hospitais do Complexo Acadêmico de Saúde da FMRP, do Hospital das Clínicas da FMRP (HCFMRP) e da Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência do HCFMRP (Faepa), com média de internação de 15 dias, sendo que 90% deles apresentavam quadro clínico grave ou crítico. Os participantes passaram por avaliações que incluíram a visão, a superfície ocular e a pressão intraocular e foi observado também o fundo de olho para avaliar a arquitetura da retina, por exemplo.

“Recuperados de covid-19 que tiverem queixas oculares, como dor ou visão dupla, antes ou durante a infecção, devem procurar um oftalmologista para avaliação completa. Uma investigação de rotina no consultório médico pode auxiliar na detecção de problemas ou doenças oculares”, aponta a médica Rosália Antunes Foschini.

Rosália Antunes Foschini, médica do HCFMRP – Foto: Arquivo pessoal

“Detectamos que os recuperados apresentavam boa acuidade visual e a maior parte das queixas relacionadas à visão embaçada foi solucionada com prescrição de óculos. Foi percebido um leve aumento da pressão intraocular, abrindo espaço para a hipótese de ser consequência do uso de corticoides e estudos devem ser feitos para comprovar a causa. Em relação à catarata, dois participantes apresentaram, mas era um diagnóstico anterior à covid-19”, conta a médica Rosália Antunes Foschini, do HCFMRP e coordenadora do trabalho.

Os resultados também são positivos em relação à retina, que é o tecido responsável por receber o estímulo luminoso e transformá-lo em estímulo nervoso para enviar a formação de imagens ao cérebro. “Em nosso estudo foram encontradas alterações discretas, mas há relatos de casos graves envolvendo pacientes que tiveram a doença. Por isso, é preciso continuar atento para o aparecimento do embaçamento visual e novos estudos devem ser feitos para concluir quais são as sequelas oftalmológicas”, afirma o professor Rodrigo Jorge, da FMRP e coautor do trabalho.

Professor Rodrigo Jorge, da FMRP – Foto: Divulgação

A médica Rosália recomenda ainda que recuperados de covid-19 que tiverem queixas oculares, como dor ou visão dupla, antes ou durante a infecção, devem procurar um oftalmologista para avaliação completa. “Uma investigação de rotina no consultório médico pode auxiliar na detecção de problemas ou doenças oculares”, completa.

O estudo, que faz parte do projeto Recovida, contou também com autoria dos professores Fernando Bellissimo Rodrigues, Eduardo Melani Rocha, Valdes Roberto Bollela; da médica Ílen Ferreira Costa e da fisioterapeuta Livia Pimenta Bonifácio, todos da FMRP.

Investigação das sequelas de covid-19

Fernando Bellissimo Rodrigues, do Departamento de Medicina Social da FMRP – Foto: Divulgação FMRP/USP

O artigo integra diversos estudos do projeto Recovida, que acompanha sobreviventes da covid-19 nas formas leves e graves desde maio de 2020. “É uma doença nova e a história natural está sendo descrita para saber com o que estamos lidando. Existe um conceito na área de reabilitação que quanto mais precoce for uma intervenção para reabilitar, maiores são as chances de bons resultados para os pacientes. Estamos estudando para avaliar se isso também é verdadeiro para a covid-19”, conta o professor Fernando Bellissimo Rodrigues, da FMRP e coordenador do Recovida.

Para o médico infectologista, os estudos poderão auxiliar na busca por medidas preventivas para sequelas. Por exemplo, se os pacientes apresentam dificuldades de mobilidade devido aos dias internados pela doença, será possível fazer estudos para entender o que favoreceu essa sequela e buscar novas formas de solucionar essa questão.

Além disso, o especialista destaca que não é preciso fazer uma investigação em todos os recuperados de covid-19. “Não existe a necessidade de rastrear sequelas se a pessoa estiver se sentindo bem, após a covid-19. Quando há problemas, eles são bem evidentes”, conta.

Mais informações: e-mail antunesfoschini@gmail.com com a médica Rosália Antunes Foschini

Fonte: Jornal da USP

Projeto S: imunização em Serrana faz casos de Covid-19 despencarem 80% e mortes, 95%

A imunização de toda a população adulta do município de Serrana, no interior paulista, com a vacina CoronaVac, do Butantan, fez os casos sintomáticos de Covid-19 despencarem 80%, as internações, 86%, e as mortes, 95% após a segunda vacinação do último grupo (veja os intervalos de confiança abaixo). Essa é a principal conclusão do Projeto S, estudo clínico de efetividade inédito no mundo realizado pelo instituto na cidade. A redução foi constatada por meio da comparação dos dados desde o início do projeto – até completar a vacinação de todos os grupos – com o restante do trimestre avaliado (fevereiro, março e abril de 2021).

Os resultados também mostraram que a vacinação protege tanto os adultos que receberam as duas doses do imunizante quanto as crianças e adolescentes com menos de 18 anos, que não foram vacinados. “A redução de casos em pessoas que não receberam a vacina indica a queda da circulação do vírus. Isso reforça a vacinação como uma medida de saúde pública, e não somente individual”, explica o diretor de ensaios clínicos do Instituto Butantan, Ricardo Palacios, também diretor do estudo.

Outra conclusão importante é a avaliação da incidência da doença em Serrana na comparação com as cidades vizinhas. Serrana tem cerca de 10 mil moradores que trabalham em Ribeirão Preto diariamente. Porém, enquanto Ribeirão Preto e cidades da região vêm apresentando alta nos casos de Covid-19, Serrana manteve taxas de incidência baixas graças à vacinação. Ou seja, além da queda das infecções, os moradores que transitam em outras cidades não trouxeram um incremento relevante nos casos. O Projeto S criou um “cinturão imunológico” em Serrana, uma barreira coletiva contra o vírus, reduzindo drasticamente a transmissão no município.

“As importantes conclusões do estudo poderão embasar as estratégias de imunização no Brasil e no mundo, e oferecem uma esperança do controle da pandemia com vacinas como a CoronaVac”, afirma o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas. “Não precisamos criar ilhas para atingir a imunidade da população”, complementa Ricardo Palacios. “Nós conseguimos satisfazer a vontade das pessoas de retomarem suas vidas quando a vacina é ofertada. Isso nos gera uma luz de esperança”, completa.

A pesquisa, pioneira no mundo, foi desenvolvida pelo Butantan, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e avaliada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Foi realizada em parceria com a Secretaria de Saúde e a Prefeitura Municipal de Serrana. O objetivo do projeto é entender qual a efetividade da CoronaVac, ou seja, como a imunização de toda uma população pode afetar o curso da epidemia. Na prática, entender como a vacina se comporta no mundo real.

O método utilizado para o ensaio clínico é chamado de implementação escalonada por conglomerados (stepped-wedge trial). Serrana foi dividida em 25 áreas, formando quatro grupos: verde, amarelo, cinza e azul – que receberam o imunizante seguindo esta ordem. A vacina foi ofertada a todos os maiores de 18 anos elegíveis para o estudo nestas áreas, de forma sequencial, em quatro etapas. Entre 17 de fevereiro e abril deste ano, ao longo de oito semanas, cerca de 27 mil moradores do município receberam o esquema vacinal completo: duas doses da CoronaVac com intervalo de 28 dias entre a primeira e a segunda. Isso representou uma cobertura próxima a 95% da população adulta, segundo censo de saúde feito previamente pelo Butantan.

Ricardo Palacios explica que o método de escalonamento permitiu avaliar e comparar as quatro áreas vacinadas. “Percebemos que os fenômenos observados não acontecem aleatoriamente, mas se repetem nos quatro grupos em momentos diferentes”, afirma. “O resultado mais importante foi entender que podemos controlar a pandemia mesmo sem vacinar toda a população. Quando atingida a cobertura de 70% a 75%, a queda na incidência foi percebida até no grupo que ainda não tinha completado o esquema vacinal.”

“A vacina é segura, eficaz, eficiente, de altíssima qualidade, e contribui para prevenir o desenvolvimento da doença, complicações e óbitos entre os infectados. Agora também sabemos que ela provoca efeito benéfico em uma população inteira, protegendo tanto os vacinados quanto os não vacinados e reduzindo a circulação viral de forma expressiva”, conclui Dimas Covas.

Intervalos de confiança dos índices de redução:

Casos sintomáticos

– Queda de 80% (IC95 76,9% – 82,7%) 

Internações

– Queda de 86% (IC95 74,1% – 92,3%)

Mortes

– Queda de 95% (IC95 62,7% – 99,3%)

Fonte: Instituto Butantan

Exercícios físicos em casa são eficazes e seguros para pacientes com doenças reumáticas

Um estudo que envolveu cientistas do Laboratório de Avaliação e Condicionamento em Reumatologia (Lacre) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e do Grupo de Pesquisa em Fisiologia Aplicada e Nutrição, ligado à Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, mostra que os exercícios físicos domiciliares, destinados a pacientes com doenças reumáticas, são eficazes e seguros em comparação aos programas físicos presenciais em centros especializados, embora a taxa de aderência à modalidade seja moderada. “Essa pesquisa dá uma informação inédita e válida para que se trabalhe na atenção desses pacientes, neste contexto de preocupação sobre o cuidado deles com a movimentação restrita, e revela a necessidade do uso de recursos digitais para ampliar a aderência”, afirma ao Jornal da USP o pesquisador Tiago Peçanha, profissional de educação física, pós-doutorando na FMUSP e coordenador do estudo. 

Tiago Peçanha – Foto: Arquivo pessoal

Popularmente conhecidas como reumatismo, doenças reumáticas são um grupo de mais de 100 patologias que acometem o aparelho locomotor, como osteoartrite, artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico e fibromialgia, entre outras. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 15 milhões de pessoas, entre crianças, adultos e idosos, são acometidas por essa doença que afeta desde articulações, tendões e cartilagens a órgãos, ossos e músculos. Com as medidas de restrição de movimento impostas pela pandemia, parte do tratamento dos pacientes com essas doenças foi comprometida, ao passo que envolve práticas de atividades físicas, tradicionalmente presenciais, e grande parte dos portadores faz parte de grupo de risco para a covid-19. De acordo com Peçanha, o nível de atividade física desses pacientes caiu neste período. 

“Por algum motivo as pessoas resistem em aderir, e sendo eficaz, precisamos pensar em medidas para melhorar essa aderência, com  as novas tecnologias, estratégias comportamentais, reeducar e empoderar o paciente para que ele faça o programa remoto” 

O Lacre do HC desenvolveu na FMUSP projetos direcionados aos pacientes com doenças reumáticas para o incentivo de exercícios físicos em casa e isso motivou os cientistas a avaliar a característica dos principais programas de atividade física domiciliar para pacientes portadores dessas doenças e se tais práticas são eficazes no tratamento em comparação com as atividades presenciais. A pesquisa aponta que exercícios físicos domiciliares, além de importantes para o tratamento da doença, são eficazes e seguros em comparação aos programas físicos presenciais em centros especializados, embora a taxa de aderência à modalidade remota seja de 50%.

A revisão sistemática da literatura científica com meta-análises abrange 21 estudos, com 1.797 pacientes ao todo, entre a maioria jovens adultos e adultos de meia-idade. O artigo intitulado Efficacy of home-based physical activity interventions in patients with autoimmune rheumatic diseases: A systematic review and meta-analysis foi publicado na revista Seminars in Arthritis and Rheumatism, em abril deste ano.

Características das doença reumáticas

O estudo teve enfoque nas doenças reumáticas autoimunes. Sofia Mendes Sieczkowska, profissional de educação física e doutoranda na FMUSP, explica ao Jornal da USP que essas doenças afetam as articulações e os músculos e estão associadas à morbidade e à mortalidade substanciais. Elas são geralmente caracterizadas por inflamação sistêmica, ou seja, uma inflamação que atinge todo o corpo, o que inclui diversos órgãos e tecidos, e compartilham características clínicas comuns como dor crônica, fadiga e, como consequência, baixa qualidade de vida relacionada à saúde.

Paciente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP fazendo exercício – Foto: Cedida por Tiago Peçanha

Para avaliar os efeitos da atividade física nesses pacientes, a revisão selecionou em publicações da PubMed, Web of Science, Scopus, Cochrane, CINAHL database e Sportdiscus estudos que comparam condição de exercício domiciliar com as condições sem exercício (controle) e com exercício presencial, em pacientes com doenças reumáticas. “Nós buscamos observar se a atividade domiciliar era eficaz, similar ou inferior ao exercício tradicional no tratamento desses pacientes”, afirma Peçanha. 

De acordo com o pesquisador, o estudo analisou a qualidade de vida, dor, atividade de doença, inflamação e a capacidade funcional, que é a habilidade de realizar tarefas do dia a dia geralmente prejudicadas pela doença, como amarrar o cadarço. 

Ao avaliar as características dos programas de atividade física domiciliar para esta população, a pesquisa mostrou que, em média, a duração era de quatro meses, com uma rotina que combinava exercícios de flexibilidade e fortalecimento, eventualmente adicionados ao exercício aeróbio, postural e respiratório, realizados por 40 minutos e em intensidade baixa a moderada. “Vale destacar que dois estudos usaram jogos eletrônicos de movimento cinco vezes por semana”, completa Peçanha.

A avaliação mostrou que a maioria dos programas não era supervisionada e o monitoramento era parcial, com respostas a diários, ligações telefônicas e com baixo uso de tecnologias. Foram usados equipamentos de exercícios, com faixas, bicicletas ergométricas, halteres, enviados pelos pesquisadores à casa dos pacientes. 

Os resultados mostraram que, em comparação à condição sem exercício, a atividade domiciliar foi capaz de melhorar a capacidade funcional, reduzir a dor e diminuir a atividade da doença. “Isso mostra que, além de melhorar os sintomas clássicos, ajuda no próprio controle e tratamento da doença”, afirma Peçanha. Na comparação entre o exercício domiciliar e o presencial, não foi observada diferença. Segundo ele, a atividade física domiciliar foi tão eficaz quanto a presencial, dentro das características apontadas na pesquisa, que é o maior impacto clínico do estudo. 

Arte: Jornal da USP

Melhorar a aderência

Os dados revelaram que a aderência média aos programas domiciliares era de 50%, considerada moderada. “Por algum motivo as pessoas resistem em aderir, e sendo eficaz, precisamos pensar em medidas para melhorar essa aderência, com as novas tecnologias, estratégias comportamentais, reeducar e empoderar o paciente para que ele faça o programa remoto”, completa. 

A intervenção remota com as características reportadas no estudo também foi qualificada como segura, ao passo que nenhum estudo reportou efeitos adversos, e, para nível de instrução, a pesquisa traz um direcionamento de como essas intervenções podem ser desenhadas e planejadas da melhor forma. “Esperamos que o profissional de saúde use as informações que trouxemos no artigo para recomendar as práticas e o profissional de atividade física use para desenhar os programas para atender a população”, completa Peçanha. 

O pesquisador destaca o podcast “Exercício é uma droga”, projeto que visa a aumentar o conhecimento da população sobre a importância da atividade física e nutrição para a saúde de maneira descontraída. O programa é apoiado  pela Sociedade de Fisiologia do Reino Unido e é realizado por Rafael Fecchio, da USP; Rafael Rezende, da Universidade Paulista, e Aluísio Lima, da Universidade Federal do Sergipe, além de Tiago Peçanha. Para conferir, acesse este link.

Mais informações: e-mail tiagopecanha@usp.br, com Tiago Peçanha

Fonte: Jornal da USP

Durante a pandemia não devemos nos esquecer da dengue, chikungunya e zika

Dengue, chikungunya e zika são doenças típicas do final do verão e outono em função do excesso de chuva, com isso se repetem todos os anos, de forma alarmante, justamente pela falta de cuidados da população. É importante reforçar a orientação de que não se deve deixar recipientes com acúmulo de água.

A infectologista Amanda Lara é responsável pelo Ambulatório dos Viajantes do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e orienta para que a população mantenha as mesmas condutas de todos os anos para prevenir a doença.

Os casos de chikungunya também aumentaram muito nos últimos anos, mas a dengue ainda prevalece na maioria das cidades do Brasil. O grande responsável pelos números dessas doenças é o Aedes aegypti, também chamado popularmente de mosquito da dengue, responsável pela transmissão de várias doenças para o homem – estão na lista febre amarela e zika.

A infectologista diz que é importante diferenciar os sintomas dessas doenças, principalmente em tempos de pandemia de coronavírus. “Os sintomas podem se confundir com os de outras doenças. Tanto a dengue como a chikungunya são doenças febris, com dores no corpo e cefaleia”, alerta. Entretanto, enquanto a dengue é identificada pelas dores nos corpo, na chikungunya o destaque são as dores e inchaço nas articulações. Já a zika se destaca por uma febre mais baixa (ou ausência de febre), muitas manchas na pele e coceira no corpo.

Acesse o áudio clicando aqui.

Fonte: Jornal da USP

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